Respeitável público! Antes do teatro, Curitiba aplaudia touradas
Antes do 1º teatro oficial, inaugurado em 1884, touradas e outras atrações itinerantes ocupavam as praças de Curitiba. (Arte: Larissa Nouchi/CMC)
“O teatro é um dos mais nobres e elevados passatempos a que se pode dar o homem culto; sua influência não se faz sensível como recreio meramente, é também um elemento de civilização e progresso”, cobrou o jornal “Dezenove de Dezembro”, na edição do dia 26 de dezembro de 1855. O apelo da imprensa, entretanto, demorou quase 30 anos para sair do papel. Primeiro teatro oficial de Curitiba, o São Theodoro - hoje o Centro Cultural Guaíra - só foi inaugurado no dia 28 de setembro de 1884.
Com média anual de 200 mil espectadores, as atrações do Festival Internacional de Teatro de Curitiba, maior evento de artes cênicas da América Latina, lotam não só as casas de espetáculos, mas também ocupam as praças e outros espaços não convencionais. Mas, antes do nosso primeiro teatro oficial, o que movimentava a vida social por aqui? A história do entretenimento da capital paranaense é tema da nova reportagem especial do Nossa Memória, desdobrada em podcast da Câmara Municipal de Curitiba (CMC).
>> Das touradas ao teatro: podcast revisita a história do entretenimento em Curitiba
À época da reportagem do “Dezenove de Dezembro”, primeiro jornal da recém-emancipada Província do Paraná, a população total era de 20.629 habitantes, sendo 18.861 pessoas livres, número que corresponde a 10% da média de público das últimas edições do Festival de Teatro. O levantamento histórico data de 1854 e tem como referência as Listas Nominativas de Habitantes, espécie de pré-Censos da população. Além disso, referia-se ao distrito da vila de Curitiba, ou seja, também compreendia as freguesias de São José Palmeira, Campo Largo, Iguaçu (Tindiquera) e Votuverava.
A Curitiba de 1853, conforme definiu o jornalista, historiador e político Rocha Pombo (1857-1933), era “acanhada e sonolenta”. O teatro era visto como “um elemento de civilização e progresso”, mas sua consolidação foi um processo gradual, iniciado há 165 anos, dentro do processo de transição do rural para o urbano, fruto, justamente, das transformações políticas, econômicas e sociais trazidas pela Emancipação da Província do Paraná.
Buscava-se a modernização e o progresso em diferentes aspectos. Nas palavras do jornal “Dezenove de Dezembro”, a estrada da Graciosa, por exemplo, que seria concluída apenas em 1873, era vista como a forma de puxar o “triunfo da civilização” para o comércio, a agricultura e a indústria da nova Província, encerrando o ciclo do caminho definido como uma “vala” que, em “ruínas perigosas”, colocava em risco aqueles que faziam a travessia entre a capital e o litoral do Paraná.
Os vereadores, a quem cabia determinar as posturas do período imperial, com vistas à “civilização moderna”, também eram demandados. “A nossa Câmara Municipal, que tão solícita se mostra no desempenho de suas importantes funções, permitirá que de passagem lhe lembremos que, logo que o governo [provincial] ponha à sua disposição algum engenheiro, é preciso tratar de dar a esta nossa capital um plano a que se sujeitem às novas construções, que nela estão se levantando quase todos os dias. As nossas grandes capitais, inclusive a Corte do Rio de Janeiro, são cidades muito defeituosas por haverem se levantado sem plano, a gosto e capricho dos primeiros proprietários”, alertou o “Dezenove de Dezembro”, na edição de 29 de abril de 1854.
A reportagem chamava a atenção para a necessidade de se padronizar a largura das ruas e a extensão dos quarteirões e de implantar um sistema de esgoto, para “evitar-se a monstruosa quantidade de lama que entulha as ruas depois de qualquer chuva”, bem como de evitar “certas questões da arquitetura das casas”, colocando fim às “construções aleijadas”. “Tudo isso merece séria atenção da nossa Municipalidade. Não temos ainda iluminação, as calçadas são horríveis. Ninguém se atreve sair à noite a passeio porque tem medo de cair em algum barranco ou ir abraçar-se aos chavelhos [chifres] de algum boi”, acrescentou o jornal.
Curitiba adota touradas como símbolo de progresso
No entanto, além da preocupação com a construção de estradas, a infraestrutura urbana, a saúde pública, o abastecimento de água, o saneamento básico e a iluminação pública, entre outras questões da dinâmica urbana, a transição do rural para a cidade vista como moderna, no século 19, também foi marcada por transformações sociais e culturais.
A elite curitibana passou a defender, mais intensamente, modelos de progresso e de comportamento vistos como mais civilizados e refinados, a partir de dinâmicas sociais adotadas por metrópoles europeias, como Paris e Londres, e pela capital do Império, o Rio de Janeiro. Uma das práticas que chegaram à capital da Província do Paraná, sob discursos de serem bem aceitas na Corte, foram as touradas.
“Há que se ter em conta que, no século 19, as touradas bem se ajustaram à dinâmica das localidades que transitavam do rural para o urbano. Já adotaram um modelo empresarial – o sucesso do empreendimento dependia da venda de ingressos, mas ainda mobilizavam muitos elementos do campo, não só pela presença explícita do gado, como também por uma certa rudeza menos identificada simbolicamente com a cidade que passava por um processo de ‘refinamento dos gestos’”, cita o estudo “Aos touros: a tauromaquia, o processo de modernização e o trânsito do rural ao urbano em Curitiba (1856-1916)”, de Victor Andrade de Melo e Leonardo do Couto Gomes. A pesquisa foi publicada na revista “Diálogos”, em 2020.
As touradas também eram chamadas de corridas de touros, praça de touros, circo de touros e de tauromaquia. Conforme registros da imprensa local, Curitiba recebeu os espetáculos entre 1856 e 1916. As companhias itinerantes se instalavam em praças públicas da cidade, à época ainda chamadas de largos. A exemplo de outros divertimentos, como bailes públicos e rinhas de galo, era necessário o pagamento de impostos à Municipalidade - neste caso, da “licença tauromáquica”.
O primeiro registro da imprensa local em relação às touradas é de 13 de fevereiro de 1856, quando o diretor da companhia comunicou ao “respeitável público” o novo divertimento da cidade, que desde 1837 já teria passado “por todas as Províncias deste Império”. A estreia do espetáculo ocorreria no dia 21 de fevereiro, mas, em função do período de quaresma, foi transferida para o domingo de Páscoa.
“Domingo 23 do corrente, se o tempo permitir, terá lugar o primeiro divertimento de corridas de touros”, registrou o “Dezenove de Dezembro”, na edição de 19 de março de 1856, sobre o circo montado em frente ao Palácio do Governo, que ficava entre as ruas das Flores e da Carioca, a atual rua Riachuelo. “O diretor não se tem poupado a despesas e trabalhos a fim de apresentar um espetáculo digno ao respeitável público, de quem se espera o mesmo acolhimento que se tem obtido nas outras Províncias do Império.”
Ao longo do século 19 e no começo do século 20, temporadas de outras companhias ocuparam os largos curitibanos. No dia 31 de maio de 1882, a recém-criada “Gazeta Paranaense” anunciou a chegada da Companhia Tauromáquica Lusitana, após passagem pelas “principais cidades da Europa, nas repúblicas do Prata [Argentina, Paraguai e Uruguai] e, ultimamente, nas Províncias deste Império”. Dirigida pelo “intrépido cavaleiro” Joaquim José Leite Vasconcellos, natural de Coimbra, Portugal, o elenco reunia, inclusive, a cavaleira Idalina Villaça, definida como a “heroína porto-alegrense”.
No dia 15 de julho de 1882, a Companhia Tauromáquica Lusitana reforçou o convite para o debut em Curitiba: “Da tourada na praça, já se ouve soar. Corneta festiva, tocando a chamada! Já grande alvoroço, em todos se expande. Sinal evidente de que temos tourada”.
Ao longo dos próximos meses, a companhia deu sequência às funções (apresentações) na cidade de Curitiba. Entre os anúncios publicados pelo jornal “Gazeta Paranaense”, foi divulgado o segundo espetáculo, a “grande e esplêndida corrida de quatro bravos, valentes e puros touros ou novilhos”, a ser realizado em um domingo, dia 23 de julho de 1882, no largo Lobo de Moura, que depois recebeu o nome de largo Thereza Christina e, desde 1901, é a praça Santos Andrade, no Centro da capital do Paraná.
Conforme a propaganda, o espetáculo começaria com a apresentação do Hino Nacional, executado pela “banda de música do Corpo Policial”. Encerrado o momento cívico, os toureiros, a pé e a cavalo, dariam início ao martírio dos animais com o uso de farpas e bandarilhas, instrumentos pontiagudos, além de “saltos por cima das feras, com ou sem vara”.
Entre as atrações inéditas, uma estratégia adotada na divulgação de cada nova função, como forma de atrair o público, prometeu-se a execução das “dificílimas” “Salto de la garrocha [vara com ferrão]” e de “Passes de muleta [pano vermelho usado no terço final da lide, como instrumento para enganar o touro]”. “Advertência. Estes touros serão toureados de capa pelos artistas que o diretor determinar”, mencionou o anúncio. Apesar disso, não fica claro se os animais seriam mortos, ou não, ao final da tourada.
Já para a terceira apresentação da Companhia Tauromáquica Lusitana, a “Gazeta Paranaense” disse ter informações de que “bons touros” haviam sido apanhados “nas matas do Uberaba”. Na edição de 19 de agosto de 1882, o jornal publicou a primeira crítica ao espetáculo, lamentando que o público da capital não estaria “apreciando devidamente os importantes e arriscados trabalhos que têm sido executados”.
“Pela primeira vez aqui têm vindo verdadeiros artistas tauromachinos”, elogiou. “Este gênero de diversão que tantos aplausos tem recebido na Europa, e que na América começa a aparecer, é digno da concorrência pública”, defendeu o jornal. “Não podemos, porém, furtar-nos a lamentar que os touros e as vacas fornecidos, na maior parte, não tenham ajudado os artistas”, continuou. Segundo a “Gazeta Paranaense”, uma das funções que mais arrancou aplausos do público foi quando um dos cavaleiros “fez, pespegando [assentando] na testa do bicho, já furioso, uma estrela”.
No noticiário do mesmo jornal, divulgou-se, uma semana depois, que ao pescoço de um dos touros seria “colocado preço, [...] que pertencerá a quem os for tirar”. Mantendo os elogios à Companhia Lusitana e à braveza dos animais fornecidos pelo coronel Manoel Ignacio, a “Gazeta Paranaense” relatou que o touro da segunda função “era tão bravo que, não conseguindo espetar os artistas, enraiveceu-se que começou tremendo, caiu e morreu instantaneamente no centro da praça”. Ao boi cujo pescoço havia sido colocado preço, informou-se que “ninguém o tirou”.
Crescem as críticas contra a violência aos animais
Na década seguinte, com a passagem do Império para a República, a imprensa dá sequência à publicação de propagandas sobre touradas. Aumentam as temporadas de companhias em passagem por Curitiba e as atrações caem no gosto popular. Em fevereiro de 1892, por exemplo, o jornal “A Republica” anunciou espetáculo dominical, no largo Tereza Cristina (antigo largo Lobo de Moura), com “toureadores” espanhóis.
Mas, se antes eram vistas como símbolo de civilidade e progresso do Império, as touradas, no fim do século 19, já enfrentavam resistência e críticas pela brutalidade contra os animais. No estudo sobre a tauromaquia, Victor Andrade de Melo e Leonardo do Couto Gomes citam que um deputado constituinte por Pernambuco, Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905), apresentou, em 1892, projeto de lei com o objetivo de proibir as corridas de touros e “todos os espetáculos cruéis e contrários à índole nacional”.
Pintor, romancista, poeta, professor e filósofo, Pedro Américo viveu entre o Brasil e a Europa. Como artista, foi autor de obras famosas, como “Independência ou Morte!”, “Tiradentes esquartejado” e “Libertação dos escravos”. No campo político, teve como principal bandeira a educação como base do progresso e defendeu, principalmente, a criação de universidades públicas e museus. Seus discursos parlamentares também evidenciam críticas ao poder público, pela similaridade entre os regimes imperial e republicano, e ao atraso em que vivia o país.
Em outubro de 1895, foi anunciada a estreia da Companhia Tauromáquica, vinda do Rio de Janeiro e dirigida por João Vieira, em circo de touros no largo Tereza Cristina, já com a designação de praça. Com a garantia de “excelentes acomodações para famílias”, os bilhetes eram vendidos antecipadamente na Confeitaria Paquete, na praça Tiradentes, com direito a camarotes pelo valor de 15 réis. Para as arquibancadas, havia diferença entre os lugares na sombra, que custavam 2 réis, e no sol, cuja entrada saía por 1 réis. Crianças abaixo de 8 anos tinham direito à meia-entrada.
A maior parte da imprensa local mostrava-se entusiasta das touradas. O espetáculo, entretanto, recebeu críticas, antes mesmo da estreia, do jornal “A Luz”, em artigo assinado pelo comendador Alfredo Munhoz. “O dito escritor combate fortemente a minha arte, taxando-a de escola de maus instintos e de passatempo nocivo à sociedade moderna”, respondeu o diretor da companhia, João Vieira, em comunicado publicado por “A Republica”, apelando ao argumento de que, “em todos os tempos e em grande número de países civilizados da Europa, aquela arte é considerada como um meio fácil de desenvolver a musculatura do homem”.
Entre outros argumentos, Vieira menciona que o exército lusitano não teria mais “soldados valentes e conquistadores ousados” porque “vão se apagando as boas tradições dos toureiros”. “Bem razão tinha aquela sociedade para assim pronunciar-se, visto que a maior barbaridade é tirar a existência dos bois para a alimentação pública”, pontuou o diretor da companhia, alegando que a Sociedade Protetora dos Animais de Boston, Estados Unidos, havia declarado, em 1888, que a tauromaquia “não ofende a vida dos bois e que, por isso, não devia sofrer guerra alguma”.
Quando a diversão quase terminou em tragédia
Após as críticas da imprensa, a estreia da Companhia Tauromáquica, dirigida por João Vieira, foi adiada por uma semana, devido aos temporais que castigaram Curitiba e causaram danos, inclusive, ao Museu Paranaense, e só ocorreu no dia 27 de outubro de 1895. “A praça estava regularmente cheia, pois é uma das maiores que temos visto neste gênero de circo. É preciso, porém, que todas as tábuas sejam repregadas, pois notamos que as arquibancadas não estavam muito firmes, sendo o madeiramento um tanto fraco”, alertou “A Republica”, em reportagem de capa. “O público divertiu-se a valer umas vezes, e outras aborreceu-se bastante”, ponderou o jornal sobre o “bom gênio” de alguns dos animais.
O alerta sobre a fragilidade da estrutura, no entanto, teve pouco efeito. Na edição de 17 de dezembro de 1895, “A Republica” informou que a praça de touros estava lotada, dois dias antes, com público aproximado de 4 mil espectadores, inclusive com muitas mulheres e crianças, quando o espetáculo quase acabou em tragédia nas arquibancadas. “Cena tétrica”, afirmou a reportagem, intitulada como “Lamentável!”.
“Grande parte da população desta capital assistiu anteontem à tarde a uma cena ao mesmo tempo tétrica e compungente [comovente]”, estampou a capa do jornal. “O povo aproveitou o dia de descanso, crianças, homens e mulheres, e lá foi satisfeito à praça de touros. Ninguém lembrava-se da fragilidade da construção daquele circo, que pode efetivamente comportar, mas não sustentar o peso de 4 mil pessoas.”
Em meio às funções e aplausos aos toureiros, “A Republica” relatou que “do lado do sol [das arquibancadas] ouviu-se um primeiro estalo e, em seguida, gritos lancinantes”. “Depois, a massa de povo que ali achava-se aglomerada começou a precipitar-se num movimento estranho e confuso. As arquibancadas começaram a rebentar, [...] e mulheres, homens e crianças, numa descida medonha, iam rolando em confusão, em meio a gritos indescritíveis”, detalhou. “Em poucos minutos via-se um montão de gente em confusão, toda precipitada sobre os escombros.”
Os espectadores dos camarotes e do lado da sombra, cujos bilhetes eram mais caros, assustaram-se com a “desgraça”, e alguns correram para “saber a sorte dos infelizes”. “Era voz geral que devia haver muitos mortos. Esse primeiro movimento foi mais nocivo ainda, pois, além do peso do madeiramento, as vítimas sofriam o peso do povo que ali correra em auxílio delas, [...] não houve felizmente mortes, mas há grande número de pessoas molestadas”, noticiou.
“As famílias retiraram-se precipitadamente, em confusão, aos gritos e entre lágrimas, [...] não podemos entender como pudera haver tamanha aglomeração de povo num circo muito bonito, mas tão mal construído”, prosseguiu a reportagem. “Censuramos a falta de cuidado na fiscalização, e convém que sejam tomadas providências para que não se repitam tais fatos.”
Entre os ferimentos, foram descritas contusões, entorses, luxações e fraturas, com as pessoas carregadas nos ombros daqueles que não haviam sido atingidos pela queda das arquibancadas do lado sol, “de cima para baixo”. O jornal relatou que havia uma menina de 11 anos de idade em estado grave devido a “contusões sobre as costelas e nos rins” e um pai de “numerosa família” que teria tido a “perna partida”. Por iniciativa do primeiro-tenente Joaquim Sarmanho, foi aberta, inclusive, uma “subscrição popular” para arrecadar dinheiro para os feridos.
Em carta à redação, o empresário da Companhia Tauromáquica, Antonio Paquete, dono da confeitaria onde se vendiam os bilhetes para as apresentações, lamentou a “dolorosa cena”, mas omitiu-se da responsabilidade pelo desastre. “Nada entendo de carpintaria, não podia avaliar as condições de solidez do circo, que fora submetido ao exame do sr. Bianche, engenheiro da Câmara, e de um outro engenheiro das Obras Públicas. Ora, assim tendo os engenheiros notado alguns defeitos de construção, fiquei tranquilo, pois supus que o construtor, sr. Pedro Falce, observasse as exigências de tão dignos inspetores”, alegou. Paquete também informou que, diante do contrato com Falce, buscaria entender-se com o construtor, “amigável ou judicialmente”, para dar continuidade ao circo de touros.
Sob o nome de Coliseu Lusitano, a campanhia dirigida por João Vieira manteve as apresentações em Curitiba, dentro do novo modelo em que as touradas reuniam outras atividades, como apresentações circenses e de música, para entreter o público. Apesar do “muito bom êxito” e dos touros “bravíssimos” da função realizada no dia 17 de novembro de 1896, o jornal “A Republica” lamentou: “Foi pena ter havido pequena concorrência”. Com a menção, inclusive, de espetáculos beneficentes, há registros na imprensa paranaense de que o grupo promoveu corridas de touros na cidade até meados de 1897.
Na virada do século, Curitiba observou grande crescimento populacional e diversas reformas urbanas, mas as touradas persistiram, com temporadas de outras companhias itinerantes na cidade. O “Diário da Tarde” informou, por exemplo, a realização de corridas no Coliseu Curitibano, entre abril e julho de 1903, no circo de touros montado na praça Tiradentes. Em um dos espetáculos, o destaque foram três “senhoritas toureiras” e o desafio entre os “espadas Manoel Antelo e Angel Rodelo”, para o qual foi lançada uma aposta no valor de 500 réis.
“Atenção. Todos aos touros”, conclamou o anúncio publicado por “A Republica” sobre a “afamada companhia de senhoritas toureiras”. Eram as estrangeiras Lola Salinas (mais conhecida como La Aragonesa), Asuncion Gregorio e Francisca Dias. O jornal, porém, criticou o “péssimo” espetáculo. “A concorrência foi enorme, mas os trabalhos estiveram aquém da expectativa do público que, em lugar de ver lidados seis touros bravos, viu na arena apenas três touros e três vacas, animais já muito cansados”, opinou. Ainda conforme a publicação, desagradou o público o fato de um dos animais, depois de farpeado, ter sido “retirado da arena, dando-se-lhe tantas pauladas que chegaram quase a lhe vazar um dos olhos”.
Nesse contexto, surge o empresário espanhol Francisco Serrador. Ele adquire o Coliseu Curitibano, mas logo anuncia a venda do madeiramento do circo de touros. Na sequência, Serrador inaugura, com o mesmo nome, o que seria o parque de diversões de Curitiba, visto como símbolo do progresso moderno. O novo empreendimento foi instalado na rua Rua Aquidabã, atual rua Emiliano Perneta, local onde funciona, hoje, o Instituto de Educação do Paraná Professor Erasmo Pilotto. “Com sua conhecida acuidade para os negócios, talvez tenha percebido que a nova cidade já valorizava outros entretenimentos”, observa o estudo de Victor Andrade de Melo e Leonardo do Couto Gomes.
Já no dia 2 de maio de 1910, “A Republica” comemorou a estreia, na véspera, de “animada tourada” para o divertimento dominical das famílias curitibanas. Na mesma época, crescem as críticas às corridas de touros e outros “divertimentos” com base na barbárie de animais. O “Diário da Tarde” divulgou, na capa da edição de 5 de setembro de 1910, artigo assinado por Luiz Ernesto de Oliveira, com críticas incisivas aos costumes nacionais. “Nosso povo ainda é bárbaro, é selvagem, é feroz no trato dos animais, [...] é feroz quando nas brigas de galos e nas touradas se diverte com o derramamento de sangue dos animais que nos são mais úteis”, argumentou.
“Enquanto as touradas deixaram de ser promovidas com maior frequência, até mesmo por já não atrair grande público, o parque de diversões de Francisco Serrador logrou grande sucesso”, explicam Victor Andrade de Melo e Leonardo do Couto Gomes sobre a perda de espaço da tauromaquia. Eles explicam que essa mudança ocorreu devido a novos parâmetros de modernidade e às crescentes críticas veiculadas na imprensa, além de brigas políticas e a atuação de opositores, como a Federação Espírita do Paraná.
Os últimos registros de touradas realizadas em Curitiba são de 1916. Com estreia em um domingo, dia 19 de março, houve funções pelo menos até o mês de abril, em circo de touros montado na rua Barão do Rio Branco. “A mania da tourada”, criticou, na edição de 17 de abril daquele ano, o “Diário da Tarde”. “Ontem, após terminar o espetáculo na praça de touros, à rua Barão do Rio Branco, Carlos Casagrande, em companhia de amigos, resolveu fazer também uma tourada”, relatou. A “tourada ao ar livre”, segundo o jornal, terminou com o cocheiro de um bonde elétrico ferido e o jovem, atrás das grades.
“Passando a ter que rivalizar com os inovadores matches de futebol, as ‘emocionantes’ corridas ciclísticas, os ‘velozes’ carrosséis, os ‘espetaculares’ teatros e os ‘magníficos’ cinemas, a tauromaquia passou a ser cada vez menos presente no cotidiano”, explica o “Aos touros: a tauromaquia, o processo de modernização e o trânsito do rural ao urbano em Curitiba (1856-1916)”. À época capital da República, o Rio de Janeiro vetou a realização de touradas por meio de decreto, em maio de 1908. Em Curitiba, isso só ocorreu em 1934, quando o presidente Getúlio Vargas decretou a proibição das lutas entre animais.
Circos e trupes mambembes também ocuparam a cidade
No século 19, Curitiba também recebia companhias itinerantes de circo e trupes de teatro mambembe. Os circos provisórios eram montados em largos e praças. As peças teatrais, realizadas em teatros improvisados, montados em imóveis locados para tal finalidade, ou nos clubes da cidade.
As temporadas dos circos itinerantes, à época chamados de circos equestres ou olímpicos, eram até mais comuns, no século 19, que as praças de touros. O primeiro registro da imprensa local é de 4 de novembro de 1854, quando o “Dezenove de Dezembro” anunciou a estreia de “divertimento”, no dia seguinte, no largo da Matriz - depois chamado de largo Dom Pedro II e, desde a Proclamação da República, a praça Tiradentes, no Centro de Curitiba. Tratava-se de uma companhia italiana, dirigida por Angelo Onofre.
“Desde o seu primeiro número, o ‘Dezenove de Dezembro’ tem um espaço reservado para anúncios, variando de meia coluna a uma coluna e meia. Pela observação feita neste primeiro ano, pode-se constatar que a vida na ex-Comarca de Curitiba ganhava dia a dia uma movimentação cada vez maior não só no setor político, como era esperado, mas também no setor social e cultural”, observou a jornalista Lucia Glück Camargo (1944-2020), ex-secretária estadual da Cultura e que hoje dá nome a uma das mostras do Festival Internacional de Teatro de Curitiba, a partir do estudo dos 53 primeiros exemplares do jornal pioneiro da Paraná.
Ao longo dos anos, Curitiba recebeu temporadas de companhias circenses estrangeiras, como de Portugal e da Itália, e brasileiras. Em 1883, surge o Grande Circo Paranaense. Para atrair a atenção do público, eram anunciadas novas atrações a cada espetáculo, assim como nas propagandas das touradas.
Em 1866, a Companhia Ginasta e Equestre prometeu, para a estreia na cidade, presentear o público com a “dança de corda com saltos mortais”. Já a jovem equilibrista Lucia executaria, por exemplo, “dificultosos exercícios”, como a “parada na cabeça na ponta de um pau de 15 palmos na dita corda com fogos artificiais”. Na segunda apresentação, o anúncio do “Dezenove de Dezembro” cita que o espetáculo seria encerrado “com a farsa intitulada ‘O diabo encantador’”. Na terceira, a atração final seria “uma graciosa dança intitulada ‘O camponês embriagado em pernas de pau’”.
A Companhia Brasileira Equestre e Ginástica chegou à capital da Província do Paraná, em 1871, prometendo “arrogantes e bem amestrados cavalos”. “A companhia, não costumando pôr bando pelas ruas, previne que o sinal do espetáculo será foguetes”, advertiu aos curitibanos.
Em 1874, o jornal O "Dezenove de Dezembro" anunciou uma “extraordinária função”, no dia 2 de maio, em benefício das obras do teatro São Theodoro, com a presença, inclusive, do presidente da Província, Frederico José Cardoso de Araújo Abranches. A programação do espetáculo trazia atrações como “a serpente elástica” e “a escada perigosa”. Na mesma época, a Real Companhia Italiana, dirigida pelo artista Palmiro Bragazzi, também se apresentava em Curitiba.
Vôo de balão executado por artista mexicano parou Curitiba
No dia 6 de fevereiro de 1876, moradores da cidade de Curitiba e de seus arrabaldes lotaram o circo montado no largo da Matriz para assistir ao que teria sido o primeiro vôo de balão em Curitiba, executado pelo artista mexicano Ceballos, “um dos primeiros aeronautas do mundo”. “Quase toda a população da capital estava ali, ávida de curiosidade, ansiosa por ver o quanto podia a coragem do homem que sente-se dominado pelo amor à arte”, narrou o “Dezenove de Dezembro”. “Todos tinham os olhos fitos no circo, contemplando os preparativos da ascensão.”
Com o vento “um pouco forte”, levou uma hora e meia para encher o balão, o que, conforme o jornal, teria aguçado ainda mais a curiosidade do público. “Mas afinal o sinal foi dado e o aeronauta apareceu no circo em seus trajes de artista ginástico”, mencionou a reportagem. “As cordas que prendiam o balão foram soltas e, com a rapidez do relâmpago e o sangue frio do estoico, o arrojado mexicano, apegando-se às duas argolas [...] presas aos cordéis, bradou: Viva o povo de Curitiba! E subiu… Este viva, começado em terra, já foi terminado no ar. O balão tinha se elevado entre palmas dos espectadores do circo”, noticiou.
Seguro apenas pelas duas argolas, Ceballos executou acrobacias “das mais difíceis” no ar, “a 40 ou 50 metros do solo”. Segundo o jornal, o público temia que o artista caísse e “se fizesse em mil pedaços”. “O entusiasmo do povo, como que um choque elétrico todos tivessem tocado, transformou-se em estupefação, mas estupefação mista de terror e de consternação. Era um assombro diante do rasgo de suprema audácia de um homem, frágil criatura, que afrontava a morte, perdendo-se no espaço, como em desafio à força do vento e às nuvens”, pontuou.
“Seria ele um louco ou um homem extraordinário?”, questionou o “Dezenove de Dezembro”. “O balão, depois de haver-se elevado por cerca de 1 mil metros, fosse por escassez da força impulsora, fosse pelo estado carregado da atmosfera, começou a baixar”, relatou. O pouso era esperado para o alto do São Francisco, para onde correu a multidão curiosa, alguns a pé, outros a cavalo, “porém, a descensão se findara um pouco mais distante, nos terrenos de uma chácara do sr. Lustosa de Andrade, a cerca de 2 quilômetros desta cidade”.
De volta ao circo, Ceballos anunciou um novo voo, dia 15 de fevereiro, uma quarta-feira, beneficente às obras da nova Igreja Matriz de Curitiba. Por se tratar de um dia útil, o “Dezenove de Dezembro” mencionou que era esperado um público menor, mas que a multidão começou a chegar ao largo da Matriz já no fim da manhã. “O dia de trabalho transformou-se num dia de festa para quase toda a população da cidade e dos arrabaldes vizinhos”, observou.
O balão subiu às 15 horas, mesmo com um pequeno furo, por se chocar com um dos palanques do circo. O aeronauta mexicano arrojou ainda mais: “Ceballos, desta vez, para recrear o público, levou consigo um cãozinho atado a um paraquedas e, a uns 500 metros de altura, lançou-o à terra”. Segundo a notícia, “o cãozinho caiu a pouca distância da cidade, sem acidente algum”. O artista mexicano, que teria subido até 1,5 mil metros de altura, desceu num banhado a 3 quilômetros do perímetro urbano.
A imprensa festejava feitos como o de Ceballos, mas outros espetáculos não agradaram. Na edição de 10 de novembro de 1877, o Dezenove de Dezembro defendeu a prisão de um palhaço do circo equestre. Segundo o jornal, a postura do “saltimbanco imoral e audacioso” dividia opiniões mas, quando o homem “teve a audácia altamente criminosa de atirar-se às bancadas, o pronunciamento foi geral contra ele”. “Não houve um só homem sensato que não protestasse contra esta agressão. Entretanto, o palhaço, tranquilo, retirou-se, apesar de energicamente repelido, quando deveria ser preso.”
Também situações em que as companhias itinerantes encerravam as temporadas em Curitiba, mas não levantavam o madeiramento dos circos montados em praças públicas. Então cabia à Câmara Municipal remover as estruturas abandonadas, a exemplo da discussão realizada na sessão de 13 de abril de 1883.
Das “noites de divertimento” ao primeiro teatro oficial
Na edição de 19 de dezembro de 1855, o “Dezenove de Dezembro” anunciou a chegada da companhia teatral dirigida pelo ator mambembe Domingos Martins de Souza à cidade de Curitiba, após apresentações em Paranaguá, Morretes e Antonina, “com o fim de dar algumas representações”. “O seu diretor, Domingos Martins de Souza, está prontificando o teatro e faz todos os esforços para dar começo aos seus trabalhos”, disse o jornal.
Na mesma edição, na seção de anúncios, a companhia dramática divulgava o começo da venda de camarotes e demais assentos. “Logo que fique pronto, o teatro se anunciará o dia de sua abertura”, assinou o administrador e encarregado, Jesuíno Baptista da Silva. Primeiro espaço cênico da cidade, o Teatro de Curitiba foi improvisado numa casa de madeira localizada na rua da Direita, a atual Rua 13 de Maio.
O dia 30 de dezembro de 1855 foi definido como a data para a inauguração do Teatro de Curitiba, com a encenação do drama “Luiz de Camões” e da comédia “O caixeiro da taverna”. No anúncio do espetáculo, publicado em 26 de dezembro, no “Dezenove de Dezembro”, a companhia ressaltou “os grandes esforços, sacrifícios e despesas para prontificar o teatro nesta capital”. “Ao respeitável público cumpre proteger e animar este divertimento de tão reconhecida utilidade e instrução”, pediu.
Na mesma edição em que foi publicado o anúncio da data de inauguração, o “Dezenove de Dezembro” celebrou a novidade. O jornal apontou que, para “quem tão enfadonha vida vai passando e atravessa as noites sem entretenimento”, a instalação do teatro numa casa particular, “para servir provisoriamente”, deveria “ser de bom grado acolhida”.
Destacando a atividade cultural como “elemento de civilização e progresso”, o jornal defendeu que as elites de Curitiba se unissem para que a cidade tivesse seu primeiro teatro regular - feito que só seria conquistado em 1884, com a inauguração do Teatro São Theodoro, embrião do Centro Cultural Teatro Guaíra. “Há muito se deveria ter promovido uma subscrição para um teatro regular, [...] e para esse fim era necessário que algumas pessoas influentes se interessassem, e isso facilmente se obteria se as pessoas mais abastadas contribuíssem com algumas quantias para um edifício tão útil”, argumentou. O “Dezenove de Dezembro” chegou a sugerir que, devido à carência de operários e de materiais, se comprasse “a casa que se está aprontando para o teatro provisório”.
A imprensa elogia o espetáculo de estreia e o teatro improvisado “do nada e que, sem contestação, é o melhor que tem a Província”. A companhia dirigida por Souza mantém as apresentações em Curitiba, nas noites de sábado, com a encenação de diferentes peças, até abril de 1856, quando parte para a cidade de Paranaguá. Na edição de 14 de maio daquele ano, o artista mambembe publiciza o aluguel do imóvel da rua da Direita para um padre e designa um zelador para o teatro.
Domingos Martins de Souza chega a reabrir o teatro da rua da Direita para novas temporadas, nos anos seguintes, como entre janeiro e setembro de 1858. Em dezembro de 1859, é anunciado o Teatro das Variedades, com o ilusionista Jayme, “discípulo do teatro de Paris”. Tratava-se de espetáculo de “artes ocultas”, com o título de “Mistérios do diabo”. A peça era dividida em três partes, e a programação prometia atrações como “transporte diabólico” e “as argolas de satanás”.
Em maio de 1860, o “Dezenove de Dezembro” publicou carta anônima com reclamações sobre o atraso da cidade, como devido ao “estado das ruas” e à falta de entretenimento à população. “E as manadas de porcos! E as matilhas de cães! É melhor nem falarmos nestes bichinhos que, pelo vemos, servem de recreio e distração enquanto não temos um teatro ou outro qualquer divertimento”, assinou “O Envergonhado”.
Nas décadas seguintes, a imprensa local registrou a encenação de peças em novos teatros improvisados e nas sociedades (clubes locais), como a Sociedade Phenix. A própria cena teatral que se formava em Curitiba passou a pressionar pela construção de um teatro oficial. A lei 78/1871, o Orçamento da Província do Paraná para o ano financeiro 1871/1872, já previa o aporte de recursos, dentro da rubrica de obras públicas, para a construção de um teatro na capital.
Na edição de 21 de março de 1874, o “Dezenove de Dezembro” divulgou que dali a quatro dias “terá lugar a benção e a colocação da pedra fundamental” do primeiro teatro oficial de Curitiba. O jornal antecipou que o espaço seria batizado de São Theodoro “em lembrança ao nome do fundador desta cidade, Theodoro Ébano Pereira” - mas que, na verdade, se chamava Eleodoro Ébano Pereira.
O Teatro São Theodoro foi inaugurado em 28 de setembro de 1884, dez anos depois de lançada a pedra inicial de sua construção. A solenidade contou com a participação do presidente da Câmara Municipal e da Sociedade Beneficente União Curitibana, entre outras autoridades. Elogiado pela imprensa local como “templo da arte”, o teatro, fundado por Agostinho Ermelino de Leão e João José Pedrosa, ficava na alameda Doutor Muricy.
Por uma década, o Teatro São Theodoro tornou-se o principal centro cultural de Curitiba. Entretanto, em 1894, durante a Revolução Federalista, tema discutido no episódio de estreia do podcast Nossa Memória, o espaço foi usado como presídio e, depois, ficou fechado. Dia 3 de novembro de 1900, depois de “sensíveis reformas”, foi reaberto com o nome de Theatro Guayra, sugerido pelo historiador, jornalista e político curitibano Romário Martins (1874–1948).
Reportagem do jornal “Diário da Tarde” elogiou as transformações do edifício, que recebeu melhorias na iluminação interna e externa, na pintura dos camarotes, nas cadeiras da plateia e no acesso às galerias. “A concorrência de espectadores foi extraordinária: os camarotes de ambas as ordens estavam literalmente cheios, assim como a plateia”, noticiou sobre a peça de estreia, o melodrama “El anillo de hierro [O anel de ferro]”, dirigido pela espanhola Maria Alonsa.
“Chegou-se mesmo a dizer que, no gênero, nunca viera companhia igual ao Paraná, [...] o público não regateou [poupou] aplausos”, completou o “Diário da Tarde”. Em 1937, o prefeito da capital, Aluízio França, nomeado para desempenhar o cargo entre junho e setembro daquele ano, determinou a interdição e a demolição do edifício da alameda Doutor Muricy, sede do primeiro teatro oficial de Curitiba.
Em mensagem à Câmara Municipal de Curitiba, França justificou a decisão pela “situação cada vez mais precária". “Ciente disso e de sua falta de segurança material, interditei-o e mandei proceder a sua demolição, o que está sendo feito. Ficou Curitiba sem seu velho Teatro, mas em verdade, há muitos anos, Curitiba já não tinha teatro à altura de seu progresso”, afirmou aos vereadores por ocasião da sessão de reabertura dos trabalhos legislativos, em 5 de setembro de 1937.
Após demolição parcial, “velho Guaíra” desaba em 1944
A demolição, entretanto, só é realizada na década seguinte. Entre 1938 e 1943, registros da imprensa mostram que havia uma biblioteca em funcionamento no local, cujo saguão, ora chamado de salão de artes, recebia mostras culturais. Em dezembro de 1938, o jornal “Correio do Paraná” divulgou a inauguração da “1ª Exposição do Concurso de Fotografias” no “saguão do ex-Teatro Guaíra”. “Ao ato inaugurativo estarão presentes inúmeras pessoas da alta sociedade curitibana”, mencionou a nota.
Em março de 1939, é a vez do saguão do prédio receber “Exposição dos Artistas Cariocas”. No mesmo ano, há registros da imprensa de que o local também abrigava a Biblioteca Municipal e que recebeu cursos de idiomas estrangeiros. Em 1941, o saguão abriu espaço para a “Exposição de Caricaturas”, organizada pelo artista Trinaz Fox. No mesmo ano, na edição de 29 de abril, a coluna “Recordar é viver”, do jornal “Correio do Paraná”, mencionou que o Teatro Guaíra encontrava-se “demolido parcialmente”.
“Uma comissão de artistas e intelectuais vai conversar com o governador da cidade. O motivo dessa conversa será a construção do nosso Teatro Municipal”, publicou o jornal “O Dia”, em 14 de março de 1944. “Quando o Teatro Guaíra foi condenado, a Municipalidade deveria, em seguida, construir um novo Guaíra, [...] Curitiba é a única capital de estado que não possui um teatro municipal."
“Um desabamento ocorrido nos restos do que foi o velho Teatro Guaíra, à rua Muricy, onde está ainda a Biblioteca Pública, tornou impossível a permanência, ali, daquele instituto cultural”, reportou o jornal “O Dia”, na edição de 22 de março de 1944. Conforme a reportagem, a biblioteca seria transferida provisoriamente para um prédio da praça Tiradentes, onde funcionava a Cooperativa Mista de Consumo da União dos Servidores do Estado, para que fosse “demolido o que ainda subsiste do antigo Guaíra”.
“E no seu lugar será oportunamente erguido um edifício de vários pavimentos para acolher, em caráter definitivo, e com largueza, o nosso instituto bibliotécnico”, comunicou o jornal, em artigo assinado pelo repórter Nemo. “Aliás, o sr. prefeito encara esse como o problema mais premente, na atualidade, de sua administração. E, por isso, atacá-lo-á com com energia.” Mas foi apenas em 1954 que o terreno do antigo teatro São Theodoro recebeu a Biblioteca Pública do Paraná, mesmo ano em que o novo prédio do Guaíra, na praça Santos Andrade, abriu as portas à população.
>> Confira as referências da matéria histórica do Nossa Memória.
*Notícia revisada pelo estudante de Letras Gabriel Kummer
Supervisão do estágio: Ricardo Marques
Reprodução do texto autorizada mediante citação da Câmara Municipal de Curitiba