Ah, se o Passeio falasse! Parque de Curitiba guarda curiosidades e polêmicas

por Fernanda Foggiato | Revisão: Ricardo Marques — publicado 30/04/2026 16h55, última modificação 30/04/2026 17h53
Passeio Público: entre curiosidades e polêmicas, o quanto você conhece sobre o 1º parque de Curitiba?
Ah, se o Passeio falasse! Parque de Curitiba guarda curiosidades e polêmicas

Festas de elite, a origem do portal e um projeto polêmico, reportagem especial sobre os 140 anos do Passeio Público reúne episódios pouco conhecidos do 1º parque de Curitiba. (Arte: Larissa Nouchi - CMC)

Primeiro e único parque público da capital paranaense até 1972 (o segundo foi o da Barreirinha), o Passeio Público acompanhou, na virada do século, o processo de modernização da cidade. Palco de inovações e curiosidades, o espaço também reúne polêmicas que acabaram esquecidas no tempo, mas que são resgatadas aqui, na segunda parte de reportagem especial do Nossa Memória, da Câmara Municipal de Curitiba (CMC), sobre os 140 anos do Passeio Público.

>> Leia a 1ª parte do especial:
Passeio Público: primeiro parque de Curitiba completa 140 anos 
Criado no dia 2 de maio de 1886, com o objetivo principal de combater brejos que, conforme o pensamento da época, emanavam mismas e colocavam a saúde da população em risco, o Passeio Público já estava consolidado, no começo do século 20, como ponto de lazer e de encontro da população. Por meio da lei municipal 182/1906, seu nome chegou a ser alterado para Jardim Botânico, mesma denominação do logradouro que se pretendia criar em 1857, conforme o relatado na primeira parte da reportagem especial. A sugestão partiu do vereador Romário Martins  um conceituado jornalista e historiador daquele período, que também exerceu outros cargos públicos e políticos.

➡️ No fim daquela década, o Passeio foi palco de um de seus fatos mais marcantes. No dia 21 de abril de 1909, 33 anos depois de Curitiba assistir ao seu primeiro voo de balão, executado pelo artista circense mexicano Ceballos, no largo da Matriz (atual praça Tiradentes), foi a vez do dirigível Granada subir aos céus da cidade. Responsável pela façanha, a aeronauta espanhola Maria Aída é considerada a primeira mulher a sobrevoar os céus do país. 

>> Confira!
140 anos do Passeio Público de Curitiba é tema do podcast Nossa Memória

“Às 4 horas da tarde, o Passeio Público estava repleto de assistentes e meia hora depois a ascensão se fazia, nas melhores condições. O ‘Granada’, à voz de - ‘Larga tudo’ do maquinista, elevou-se a prumo e imponentemente, levando a sua arrojada passageira, a aeronauta Maria Aída, que dava vivas ao Brasil, acenando a bandeira nacional”, reportou “A Republica”.

Segundo noticiado à época, o voo teve a duração de 34 minutos e “alcançou a altura máxima de 970 metros”. “Diz a intrépida aeronauta que, dessa altura, Curitiba ostenta uma beleza maravilhosa, e muito a admirou a beleza dos campos que a circundam”, pontuou o jornal. A aterrissagem, no entanto, não saiu conforme o planejado:

_ Maria Aída, com um sangue frio admirável, logo que o balão tomou aquela perigosíssima direção, deixou-se cair no telhado da igreja [a Catedral de Curitiba], de cuja posição arriscada, devido aos escorregadios telhões [telhas] de cobre, foi retirada por seus auxiliares, descendo pela claraboia —  informou “A Republica”. Ilesa, a aeronauta acabou ovacionada pelo público. Já o balão Granada, “grandemente danificado”, só foi retirado da Catedral no dia seguinte, para passar por reparos.

Outro jornal, o “Diário da Tarde”, foi menos amistoso ao registrar o voo do Granada. “Anunciada duas vezes, por duas vezes fracassou, sendo que desde a primeira tentativa reclamamos contra o abuso de não ter sido restituído o dinheiro das entradas, coisa que nunca se dá em espetáculo público. À vista de nossa justa reclamação, dona Aída prometeu subir só para mostrar ao Diário que era capaz disso, o que, aliás, tínhamos posto em dúvida”, escreveu. Apesar disso, a nota elogiou o “espetáculo belíssimo” e a “coragem inaudita” da artista espanhola.

Novas apresentações da “intrépida aeronauta” foram anunciadas na imprensa local, mas o tempo curitibano, novamente, não contribuiu. Quase um mês depois de fazer história em Curitiba, Maria Aída e a equipe seguiram com destino à cidade paranaense de Ponta Grossa.

Da coroação de Emiliano Perneta ao torneio de sombrinhas

“Ontem, numa bizarra ilhota do Passeio Público, Curitiba viveu um instante à alta e luminosa vida espiritual da Grécia dos belos tempos”, comparou, anos depois, o “Diário da Tarde”. A reportagem, intitulada “Festival literário”, narra a festa em que o simbolista Emiliano David Perneta foi coroado “Príncipe dos Poetas Paranaenses”, no dia 20 de agosto de 1911.

O evento reuniu uma multidão, formada pela elite intelectual e política de Curitiba, e também marcou o lançamento do livro “Ilusão”, a obra mais famosa de Emiliano Perneta. Especialmente ornamentada para a ocasião, a antiga Ilha das Acácias, “uma das mais belas [...] e também das maiores” do parque, passou a ser chamada de Ilusão. Desde 2011, placa alusiva ao centenário da consagração pública do poeta sinaliza o local da coroação e imortaliza um de seus versos: “Toda madrugada é o começo do mundo”.

Mas nem só de poesia viviam as antigas celebrações da elite curitibana nos jardins do primeiro parque da cidade. Algumas das antigas atividades hoje seriam consideradas, no mínimo, inusitadas. O jornal “A Republica” informou, por exemplo, na edição de 10 de março de 1900: “Se prepara para breve uma animada batalha de confete no Passeio Público. Informaram-nos que se acham empenhados na realização desta batalha gentis senhoritas e elegantes rapazes”. O evento foi uma espécie de Carnaval fora de época, uma vez que os festejos populares daquele ano haviam sido celebrados no dia 27 de fevereiro. 

Em 1930, o Passeio também fez parte da programação do Dia da Caridade - evento beneficente, comemorado em 12 de outubro, sob a organização de uma “comissão de senhoras”. A festa ao ar livre teve direito a apresentações musicais, vendas de doces e bebidas, exposição avícola e concurso hípico com “sócios do Country e hábeis cavaleiras”, reportou o jornal “O Dia”. 

O “clou [ponto alto, em francês]” do evento, entretanto, foi o concurso das sombrinhas, “no qual tomarão parte as senhoritas de nosso alto mundo social”. Definida como “torneio de graça e de estética, de simplicidade e de elegância, constituirá a nota chique do vesperal [espetáculo] de caridade”, a competição consistia no desfile das moças da alta sociedade com sombrinhas ornamentadas

“Valiosos prêmios serão destinados às senhoritas vencedoras”, anunciou “O Dia”. Por fim, acrescentou a publicação, depois dos festejos diurnos no Passeio Público, as atividades do Dia da Caridade seriam encerradas com um baile de gala beneficente no Clube Curitibano.

Um pedacinho da França em Curitiba

Poucas pessoas sabem, mas o portão principal do Passeio é uma réplica idêntica da entrada do Cemitério de Cães de Paris”, observou o “Correio de Notícias” na reportagem “Passeio Público prepara-se para a festa”, de 27 de abril de 1986. Referente aos festejos do centenário da inauguração do primeiro parque de Curitiba, a notícia trouxe à tona uma das características históricas mais charmosas do logradouro, preservada até hoje.

🐕 Inaugurado em 1889, o Cimetière des Chiens et Autres Animaux Domestiques (Cemitério de Cães e Outros Animais Domésticos, em francês) é precursor do gênero na Europa. Localizado nos arredores de Paris, em Asnières-sur-Seine, às margens do rio Sena, reúne mais de 40 mil túmulos, divididos em quatro quarteirões.

No Cemitério de Cães está sepultado, por exemplo, o astro canino Rin Tin Tin, mas também há animais de diversas espécies, como gatos, cavalos e até mesmo um leão. Seu portal em pedra estilo art nouveau, projetado pelo arquiteto francês Eugène Petit, tornou-se cartão-postal de Asnières.

Objeto de tombamento estadual em 10 de setembro de 1974, a réplica curitibana, do Passeio Público de Curitiba, localiza-se na entrada da avenida João Gualberto, esquina com a rua Presidente Faria, nas imediações da praça 19 de Dezembro. O portal foi projetado pelo escritório do arquiteto francês Joseph-Antoine Bouvard. De acordo com a inscrição do bem histórico no Livro Tombo II, a construção de 1910 é uma “imitação do Cemitério de Cães de Paris”.

Centenário do Passeio Público tem divergência sobre data oficial

“E lá se vão 100 anos”, lembrou o “Correio de Notícias”, entre outras notícias publicadas em 1986 sobre o centenário do Passeio Público, definido como “a praia dos curitibanos”. “Ah, se o Passeio falasse. Quantos fatos pitorescos aconteceram nestes 100 anos”, rememorou. Além da inspiração do portal do parque, o jornal resgatou outras curiosidades, como a chegada dos animais de maior porte: “No início era apenas um bosque com alguns cisnes e marrecos. Com a chegada das primeiras doações, em 1930, acabou se transformando num pequeno zoológico”

“Segundo uma das veterinárias do Passeio Público, o animal mais procurado pelas crianças é o Tião - um macaco chimpanzé que está com mais de 20 anos”, afirmou. A “velha onça”, completou o jornal, já começava a “perder os dentes”. Em 1975, aliás, se chegou a cogitar a mudança dos animais para o parque da Barreirinha. No entanto, isso só ocorreu na década seguinte, quando eles foram transferidos, progressivamente, para o Zoológico de Curitiba, no bairro Boqueirão

As celebrações oficiais do centenário do Passeio Público tiveram como ponto de partida o dia 2 de maio. A Câmara de Curitiba promoveu uma exposição fotográfica, organizada pelo jornalista, fotógrafo e pesquisador Cid Destefani. Em outra solenidade, José Richa e Roberto Requião, respectivamente o governador e o prefeito à época, abriram os festejos com o plantio de carvalhos, repetindo “o mesmo gesto de Visconde de Taunay, há 100 anos”, e inauguraram uma placa comemorativa.

O Passeio Público foi fechado pela administração municipal, para passar por melhorias, inclusive a revitalização do portal, e foi reaberto à população dia 8 de agosto de 1986, após novo ato oficial. O dia correto do centenário de inauguração do parque, inclusive, foi mote de polêmicas entre vereadores, o Executivo e a imprensa. 

Jornalistas, como Cid Destefani, criticaram a falta de conhecimento sobre fatos históricos, reafirmaram o 2 de maio como a data correta, devidamente registrada em documentos oficiais e em reportagens do “Dezenove de Dezembro” e da “Gazeta Paranaense”. O 8 de agosto remete à segunda cerimônia de inauguração, em 1886, quando houve entrega de novas obras à população, implementadas ao longo daqueles últimos meses.

O dia em que o Passeio Público quase virou “antro de jogatina”

Se a origem dos portal do Passeio Público é desconhecida pela maior parte da população, outro fato curioso, perdido nas matérias de jornais antigos, mas resgatado pela reportagem do Nossa Memória, poderia ter mudado a configuração do primeiro parque de Curitiba.

Durante uma breve reabertura dos Legislativos Municipais na Era Vargas (1930-1945), o Passeio Público quase passou a dividir espaço com cassinos - estabelecimentos liberados, desde 1934, assim como a exploração dos jogos de azar. A cidade contava, por exemplo, com os cassinos do Automóvel Clube e Estâncias das Mercês.

Em todo o período do governo de Getúlio Vargas, a Câmara de Curitiba só teve uma eleição, realizada em setembro de 1935. Cinco anos depois de se despedir do primeiro ciclo de legislaturas do pós-Monarquia, encerrado após a Revolução de 1930, o Legislativo da capital empossou os vereadores eleitos em solenidade no dia 2 de dezembro daquele ano.

👉 Entre as polêmicas da breve legislatura, como a travada com os padeiros da cidade, os vereadores aprovaram, na sessão do dia 22 outubro de 1937, projeto de lei que autorizava a concessão do Passeio Público, pelo prazo de seis anos, para que ali fossem construídos e explorados “dois ou mais cassinos de diversões”, isentos de impostos municipais. Um deles seria “para ricos”, e o outro, “para pobres”.

O projeto 44/1937 determinava contrapartidas para a concessão do espaço. O contratante deveria assegurar a manutenção dos animais, realizar melhorias na iluminação do parque, promover concertos e festejos abertos à população e construir no Passeio Público “um moderno parque de diversões”, que funcionaria gratuitamente. 

A imprensa, entretanto, rechaçou a proposta. Os jornais “O Estado” e “Diário da Tarde”, entre outros, cobraram o veto do prefeito Carlos Heller. Eleito vereador, ele havia sido nomeado para o cargo havia pouco mais de um mês (na Era Vargas não havia eleições para o Executivo e os Legislativos ficaram fechados, fora este breve “suspiro”).

“É verdade corriqueira, de urbanismo e higiene, que as grandes aglomerações humanas exigem largos espaços vazios ou revestidos de bosques. São eles como as suas vias respiratórias”, comparou “O Estado”. “E é neles que a população se alivia da atmosfera confinada dos lares, das ruas comprimidas e de ar deteriorado por toda a sorte de emanações deletérias. Todos os nossos esforços, pois, devem tender para o aumento e jamais para a supressão dessas áreas de defesa e preservação da saúde popular.”

O jornal também sustentou que os “locais de divertimento público” de Curitiba eram escassos. “Há vastos terrenos baldios na parte leste, sudeste e nordeste [da cidade]. Construam-se os cassinos ali, beneficiando áreas que presentemente se acham inaproveitadas ou aproveitadas em parte apenas”, opinou.

O “Diário da Tarde”, que já costumava se manifestar contrariamente à exploração dos jogos de azar, foi ainda mais incisivo nas críticas ao projeto aprovado pelos vereadores. Na capa da edição de 22 de outubro de 1937, o jornal denunciou que, enquanto cassinos de Porto Alegre (RS) haviam sido fechados, Curitiba caminhava para “o alastramento da jogatina”.

“Dentro em pouco, aquele belo logradouro estará convertido num antro de jogatina. Dois cassinos, de uma só vez, serão ali explorados com a cumplicidade dos poderes públicos. E o velho Passeio, que hoje é o encanto da criançada nas tardes de sol, será o novo Monte Carlo [cassino de Mônaco]”, censurou. O jornal foi além: “Curitiba não pode permitir que o antigo Passeio Público seja transformado em casa de tavolagem. A lei que a Câmara Municipal acaba de votar não pode ser sancionada e, muito menos, executada”.

Dias depois, entre outras críticas, o “Diário” reforçou a campanha contra o jogo. “O jogo em nossa capital, pela maneira como vem sendo explorado e praticado, tornou-se um cancro social. Em todos os cantos da cidade, desde as primeiras horas da tarde até o amanhecer, as casas que exploram os jogos proibidos funcionam, de portas abertas, à espera dos incautos [imprudentes] e viciados. Suicídios, desfalques e outras consequências nefastas são registrados quase diariamente”, alegou. De acordo com a publicação, eram comuns os casos de roletas viciadas, dados preparados e outros golpes.

O projeto, por fim, esbarrou na caneta do prefeito Carlos Heller. “Devendo ser a única preocupação daqueles que se acham investidos de uma parcela de autoridade [...] o bem-estar dos munícipes, não vemos como deixar de vetar o presente projeto de lei, o que fazemos na plena consciência de prestarmos considerável benefício a uma população que no referido logradouro tem um ambiente salutar, tão necessário à vida ao ar livre e, ainda mais, por ser presentemente o único [parque público] nesta capital”, justificou o chefe do Executivo, em decisão de 27 de outubro de 1937.

Entre os argumentos usados para barrar a construção e a exploração de cassinos no Passeio Público, o prefeito citou a criação recente do Departamento de Cultura, responsável pela “propaganda sistemática de hábitos cívicos, de amor e de respeito pelo patrimônio cultural do Município, pela estética da cidade e pela edificação de lares sadios”. Heller também avaliou que o projeto representava “golpes profundos na estética do nosso mais belo logradouro”.

A decisão foi celebrada pela imprensa. “O Passeio Público está salvo!”, escreveu o jornal “O Estado”. Sob o título “Dois cassinos no Passeio Público” e a foto de Heller em destaque na capa da edição de 28 de outubro de 1937, o “Diário da Tarde” cumprimentou o gesto do prefeito, “digno de louvor da família curitibana”. “Demos o grito de alarme contra este atentado. Combatendo desde o início a jogatina franca que campeia na cidade, o 'Diário da Tarde' tem estado sempre a postos para denunciar à opinião pública os abusos e os males decorrentes daquela nefasta praga social”, observou.

Submetido no fim de outubro à análise da Câmara Municipal de Curitiba, o veto foi mantido por 8 votos contra 2. Vereadores contrários à decisão prefeitoral criticaram, por exemplo, o “descaso” da administração com praças da cidade e mencionaram “estranhamento” pelo fato de haver uma concessão, no Passeio Público, “a uma sociedade recreativa e a um inéstico [deselegante] bar”.

Os vereadores se reuniram pela última vez, no Paço Municipal, no dia 10 de novembro de 1937. Com a edição da nova Constituição, conhecida como a Carta “Polaca”, teve início o Estado Novo, que deixou as casas legislativas do país fechadas por mais uma década. A Câmara de Curitiba só reabriu em dezembro de 1947, dando início à atual contagem de legislaturas.

Quanto aos jogos de azar, a proibição foi retomada pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, por meio do decreto-lei 9.215, de 30 de abril de 1946. O novo diploma legal também anulou todas as licenças, concessões e autorizações dadas por autoridades federais, estaduais ou municipais. Entre outros fundamentos, a norma considerou que “a repressão aos jogos de azar é um imperativo da consciência universal”, além de destacar “a tradição moral jurídica e religiosa do povo brasileiro” e os “abusos nocivos à moral e aos bons costumes”.

** Confira aqui as referências da reportagem especial do Nossa Memória.