Passeio Público: primeiro parque de Curitiba completa 140 anos

por Fernanda Foggiato | Revisão: Ricardo Marques — publicado 30/04/2026 16h55, última modificação 30/04/2026 17h55
Há 140 anos, Curitiba transformava “brejo insalubre” em seu primeiro parque público.
Passeio Público: primeiro parque de Curitiba completa 140 anos

Passeio Público foi criado como obra de higiene e saneamento públicos contra área pantanosa, às margens do rio Belém. (Arte: Larissa Nouchi/CMC - Foto atual: Carlos Costa/CMC - Foto antiga: Acervo Casa da Memória/FCC)

Às 15 horas de um domingo, 2 de maio de 1886, Curitiba ficou em festa para a inauguração de seu primeiro parque, o Passeio Público. O jornal “Gazeta Paranaense” antecipou, na edição do dia anterior, que as obras do “formoso logradouro” seriam entregues pelo presidente da Província do Paraná, Alfredo d'Escragnolle Taunay, juntamente com a Câmara Municipal de Curitiba (CMC) e com outras autoridades. O “melhoramento” era visto não só como forma de embelezar e proporcionar um espaço de lazer à cidade, mas também como resposta a ameaças à “saúde e higiene gerais”, já que foi construído sobre uma área pantanosa, que costumava ser alagada pelo rio Belém.

O país já adotava, à época, o modelo português para a adoção de áreas verdes nas cidades. Em 1764, em Lisboa, o Marquês de Pombal fez a primeira de diversas doações de espaços arborizados à população, batizado como Passeio Público. Por aqui, o Passeio Público do Rio de Janeiro, localizado na Lapa, próximo à Cinelândia, foi construído entre 1779 e 1783 e é considerado o primeiro parque não só do país, mas das Américas.

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Em Curitiba, o primeiro debate sobre a construção de um parque público ocorreu em março de 1857. Na ocasião, os deputados aprovaram e o vice-presidente da Província do Paraná, José Antônio Vaz de Carvalhais, sancionou a lei nº 9. A norma determinou a criação de um jardim botânico. Apesar de prever os valores para a implementação e a manutenção do espaço, a ausência de um local fez com que a ideia não saísse do papel.

De “banhado impraticável e insalubre” ao 1º parque de Curitiba

Segundo a “Gazeta Paranaense”, a área inicial do Passeio Público de Curitiba era de 48 mil m² (depois ampliada para 69 mil m²). “As divisas deste terreno são, a norte, o boulevard 2 de Julho [atual avenida João Gualberto]; a leste, os terrenos de D. Laura [Borges, partes deles desapropriados, mais tarde, para aumentar o Passeio Público] e o tanque Bittencourt [também desapropriado, futuramente, e cedido para a instalação do Círculo Militar]; a sul, a rua do Serrito [hoje a rua Presidente Carlos Cavalcante]; e, a oeste, a rua Fontana [atualmente a rua Presidente Faria]”, informou o jornal.

No entanto, apenas um oitavo da área original era de terreno firme, “sendo o restante um banhado impraticável e insalubre”, atravessado por trecho do rio Belém. Já nos primeiros provimentos municipais, em 1721, o ouvidor Raphael Pires Pardinho determinou que as águas do rio Ivo eram para beber, pois atravessava a região central de Curitiba, onde havia a maior concentração de moradores. Já o rio Belém, situado em local mais afastado, receberia “as águas servidas”, isto é, o esgoto da cidade.

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Entre outras questões referentes à salubridade urbana, as áreas alagadiças e os rios permeavam debates na Câmara de Curitiba e na imprensa muito antes da década de 1880. Antigamente, a crença era que a água parada, assim como os corpos em putrefação, emanava miasmas, espécie de névoa capaz de espalhar doenças à população.

Em agosto de 1855, por exemplo, o jornal “O Dezenove de Dezembro” publicou uma carta anônima com apelo às autoridades. Dando como exemplo uma epidemia de cólera na Província do Pará, o leitor alertou para a limpeza de Curitiba, onde “havendo dinheiro para calçar as ruas, elas existem cheias de lama”. “E em tão grande quantidade quanto a que existe nos charcos que a cercam; charcos que muito se prestam e muito se prestarão para o desenvolvimento dos miasmas os mais deletérios”, denunciou E.O.A.I. “Seria bom que a ilustre Câmara Municipal visse essas coisas, [...] mas a ilustre Câmara não aparece, e até há quem diga que mudou de Município”, finalizou.

Das farpas na imprensa ao projeto do Passeio Público

O carioca Alfredo d'Escragnolle Taunay, futuro Visconde de Taunay, assumiu a presidência da Província do Paraná no dia 29 de setembro de 1885. Em 3 de outubro, fez o primeiro pronunciamento à Câmara Municipal, durante uma sessão extraordinária. Ele teceu críticas ao “estado” em que havia encontrado a cidade, como à situação do abastecimento de água, das calçadas, da pavimentação e da limpeza das ruas.

Taunay também se posicionou contra “alguns abusos”, em referência a um projeto que visava à mudança no arruamento central, para tornar “as ruas paralelas e as praças retangulares”. Para o gestor da Província, era necessário “conservar o maior número possível de largos e praças como áreas de saneamento da população e futuros locais ajardinados e arborizados, formando ‘squares’ e pontos de recreio”

Em artigo intitulado “Melhoramentos do município”, a “Gazeta Paranaense”, órgão do Partido Conservador, elogiou o orador pelo “luminoso discurso que, além de tudo, contém em si o precioso mérito de despertar o patriótico cumprimento de deveres por parte daqueles a quem a soberania do povo confiou os mais sagrados interesses”. “Outra utilidade, e essa de suma importância para a população, é a íntima relação que existe entre o reino vegetal e a aglomeração da população, concorrendo aquele para o saneamento público dos centros habitados”, completou.

A repercussão desagradou o presidente da Câmara de Curitiba, Nicolau Pinto Rebello, e rendeu troca de farpas na imprensa local. O vereador respondeu às críticas por meio de comunicados publicados no “Dezenove de Dezembro”, nas edições de 11 e 13 de outubro de 1895. “Fazia esperar um discurso cheio de medidas novas e mais elevadas do que aquelas, que a Câmara já tem planejado executar”, defendeu. Entre outros argumentos, ele apontou a execução de posturas para a arborização de ruas e praças de Curitiba, mas disse não haver fundamento para que a erva-mate fosse a árvore preferível. Também mencionou outros projetos em andamento e o “embaraço dos cofres municipais, cuja renda não atinge 80 contos”. “O que ficou resolvido [na reunião] a ‘Gazeta’ não diz”, concluiu.

A “Gazeta Paranaense”, órgão do governo, era claramente uma entusiasta de Taunay, que, nascido em família aristocrática, foi eleito deputado e senador pelo Partido Conservador, antes de presidir as províncias de Santa Catarina e, na sequência, do Paraná. Já o “Dezenove de Dezembro”, primeiro jornal publicado em Curitiba, logo após a Emancipação da Província, posicionava-se como veículo do Partido Liberal

No dia 17 de janeiro de 1886, Taunay dirigiu-se à Câmara, já sob a presidência de Augusto Stellfeld, para tratar da implantação do Passeio Público “entre o boulevard 2 de julho [atual avenida João Gualberto] e o açude Bittencourt [onde fica, hoje, o Círculo Militar do Paraná]”. Ele mencionou aos vereadores o “ardor e entusiasmo” do industrial do mate italiano Francisco Fasce Fontana com as obras: “Visto o oferecimento completo que fez de seus serviços, indispensáveis no caso vertente, porquanto foi uma demorada visita minha à propriedade do mesmo Sr. Fontana, transformada de imundo pântano que era em lindíssimo parque, que me suscitou esse útil pensamento”.

Taunay referia-se à visita feita à Mansão das Rosas, chácara que também era cortada pelo rio Belém e que havia sido remodelada para ser a residência de Fontana e da esposa, Maria Dolores de Leão a segunda dos seis filhos do desembargador Agostinho Ermelino de Leão com Maria Bárbara Correia. Ele ficou impressionado, em especial, com a drenagem do terreno. Graças a uma técnica inovadora, trazida pelo industrial do mate do Uruguai, o antigo banhado, próximo de onde seria construído o primeiro parque de Curitiba, deu lugar a um jardim com hortas e pomares, além de canais navegáveis e ilhas.

Os “magníficos jardins”, segundo a descrição do jornal “A Gazeta do Rio de Janeiro”, haviam encantado até mesmo a Princesa Isabel, durante a passagem da comitiva imperial por Curitiba, em dezembro de 1884. “Suas altezas percorreram a esplêndida chácara que rodeia as fábricas [de mate], cortada por inúmeros rios, divididos de propósito, além de magníficos jardins nas ilhas pitorescas, que tornam agradável e aprazível aquela parte da cidade”, relatou o veículo da capital do Império.

“Nesta chácara encontram-se flores e arbustos raríssimos, e que só se conhecem na Europa e nas repúblicas do Prata”, acrescentou a “Gazeta do Rio de Janeiro”, conforme a reportagem histórica “A família imperial pelas fábricas de erva-mate de Curitiba”, da jornalista Michelle Stival. A Mansão das Rosas foi demolida em 1974 e, da antiga propriedade, sobrou somente o portal, hoje a entrada de um conjunto de edifícios em frente ao Colégio Estadual do Paraná. 

Voltando à defesa sobre a criação do Passeio Público, o presidente da Província sustentou que “o ardor” deveria ser compartilhado por todos. “Nutro boas esperanças de que a Câmara Municipal atual verá com alegria essa bela obra, sendo motivo de orgulho ver-se-á levado à conclusão em sua administração”, pleiteou. “Aquilo tudo é uma imunda cloaca. Pode, daqui a meses, ser o mais belo recanto de toda a cidade de Curitiba. Para essa transformação, conto com esta Câmara Municipal.”

Taunay pediu que os vereadores colocassem à disposição o engenheiro da Câmara, o italiano João Lazzarini — que, entre outras obras, já havia atuado na construção da estrada de ferro entre Curitiba e Paranaguá. Conforme o gestor da Província, antes de iniciados os trabalhos de saneamento do terreno, era necessário que Lazzarini demarcasse os limites “daquela localidade empantanada”, com a finalidade de sanar “todas as questões que se possam produzir com os moradores confinados daquele terreno”.

“Talvez [os moradores] levantem pretensões absurdas, como quase sempre acontece quando se aguça o interesse individual. [...] Será até honrosa exceção, no histórico do Passeio Público de Curitiba, que tal não aconteça aqui”, sugeriu. “Pelo exame que já mandei proceder, sei que vive encravada naquela área pantanosa uma pobre mulher de cujo terreno deve ser desempossada, dando-lhe a Câmara outro correspondente, em superfície e em situação melhor”, encaminhou Taunay. Ele se referia à chácara da viúva Paulina Hauer, cuja desapropriação os vereadores concluíram dali a dois meses. A decisão foi tomada com a justificativa de “utilidade pública”, para que se desse “execução completa ao plano” do Passeio Público.

Obras começam e transformam “charco” em parque

Na sessão do dia 30 de janeiro, a Câmara de Curitiba acatou as medidas indicadas por Taunay, “quer relativamente aos serviços municipais, quer relativamente às posturas”. “Deliberou mandar proceder ao orçamento e levantamento da planta do Passeio Público no Boulevard 2 de Julho, aceitando com agrado a coadjuvação dos cofres provinciais para a realização desta obra”, cita o ofício direcionado à Presidência da Província do Paraná.

De acordo com reportagem da “Gazeta Paranaense”, as obras de nivelamento do terreno foram iniciadas no dia 17 de fevereiro de 1886, “com uma média de 50 operários por dia, sendo tudo por contrato”. “A escavação total do banhado foi de 12.100 metros cúbicos pelo preço médio de 321 réis, compreendendo a limpeza do tanque e a escavação do lago grande, feitos a 500 réis o metro cúbico”, assinalou.

O Passeio Público permaneceu como um dos temas recorrentes da Câmara Municipal de Curitiba, ao longo das próximas sessões. Além da desapropriação do imóvel e da realocação da viúva Hauer, os vereadores discutiram questões como o aporte de recursos; a economicidade e a celeridade das obras para transformar o local, “outrora um vergonhoso, imundo e pestilento charco”; e o cercamento da área em que os trabalhos estavam sendo executados, para impedir a passagem de animais e de veículos.

No dia 26 de fevereiro, por exemplo, com as obras em andamento há pouco mais de um mês, são aprovados “o plano do Passeio Público” e um Voto de Louvor ao Presidente da Província, homenageado “pela boa vontade e enérgicas providências que tem tomado para levar a efeito tão importante melhoramento”. 

Enquanto isso, o “Dezenove de Dezembro” divergiu sobre as obras. O jornal opinou, na edição do dia 21 de fevereiro de 1886, que “o único benefício municipal que pareceria provir da administração do sr. Taunay era o aperfeiçoamento da praça Dom Pedro II [com a Proclamação da República, denominada praça Tiradentes]”. 

“Convimos que é melhoramento para esta capital a transformação que se opera no terreno à margem do rio Belém, para dele formar um passeio ou jardim público, mas ninguém também deixará de convir que é esse um melhoramento suntuoso, e que os serviços desta ordem só se devem fazer em circunstâncias de prosperidade, ou pelo menos quando o estado financeiro não for desolador, como é, atualmente, o da Câmara Municipal desta cidade”, reforçou, dia 6 de abril, de 1886, o “Dezenove de Dezembro”.

Inauguração reúne multidão e marca novo espaço público

“A concorrência foi enorme, e de tanta gente que ali se reuniu, representando todas as opiniões políticas, ninguém houve, sem dúvida, que intimamente não elogiasse o administrador da Província pelo benefício que fez a esta capital”, celebrou a “Gazeta Paranaense” sobre a cerimônia de inauguração. A obra foi entregue inacabada, na tarde daquele domingo, 2 de maio de 1886, porque Taunay, o responsável, no âmbito político, por idealizar a construção do Passeio Público, deixaria o cargo no dia seguinte.

O Sr. Dr. Taunay pronunciou uma breve alocução, entregando o Passeio ao gozo público, elogiando publicamente a Câmara Municipal, o ativíssimo Sr. Francisco Fontana, o comendador Ildefonso Correa [futuro Barão do Serro Azul] e o engenheiro Lazzarini”, afirmou a reportagem. Passados os “vivas” do público, a cerimônia prosseguiu com um tour de bote pelos quase 800 metros de canais navegáveis do rio Belém. “A festa esteve animadíssima e [transcorreu] por uma tarde esplêndida. Por ato de hoje, foi nomeado diretor do Passeio Público o Sr. Francisco Fasce Fontana.”

Mesmo o “Dezenove de Dezembro” interrompeu as críticas à obra e informou que na tarde daquele 2 de maio teria lugar a inauguração do futuro Passeio Público, “que promete ser um belo logradouro”. “Inaugurou-se com grande pompa o local destinado para Passeio Público desta capital, e disso já devem ter ido os telegramas para a Corte. Aplaudimos a ideia, e achamos menos má a escolha do terreno, por ser um brejal que se pretende dessecar, e tornar útil [o que] de imprestável antes era”, opinou, na edição do dia seguinte à festa, o mesmo jornal.

Mas a trégua não durou muito tempo… “Prometemos voltar ao assunto”, reforçou o “Dezenove de Dezembro”, na edição de 6 de maio. Repetindo que “a ideia foi boa, o local bem escolhido”, o jornal repetiu a crítica à despesa da Câmara e da Província com tal obra, diante de “serviços de reconhecida necessidade” e da transparência com o que já havia sido despendido nas obras. 

Fontana assume a direção e consolida o Passeio

Um dos carros-chefe do relatório da gestão de Taunay como presidente da Província, encerrada dia 3 de maio de 1886, foi a construção do primeiro parque público de Curitiba no “extenso charco em que se espraiava o rio Belém”. “Nesse mesmo terreno está hoje formado o belíssimo Passeio Público, que sem dúvida alguma se tornará um dos mais apreciados e procurados locais de recreio desta cidade, e, para o futuro, motivo de justa ufania”, cita o documento oficial.

“Ademais, com esse aformoseamento lucrou imediata e imensamente a higiene pública, substituindo um foco de infecção, um centro de miasmas pestilentas, por logradouro o mais apropriado possível à saúde geral, pela condensação de vegetação e escoamento rápido, bem dirigido e regular das águas”, aponta o relatório. 

A inauguração, menciona o documento, foi motivo de “regozijo geral” do qual fez parte “um dos principais motores da transformação”, o ervateiro Francisco Fasce Fontana, “cavalheiro distintíssimo, dotado das melhores e mais belas intenções, ativíssimo amigo do Paraná, e do Brasil”. “E, uma vez autorizado por mim, em poucos dias mestrou [as obras], à frente de valentes turmas de trabalhadores metidos em funda lama, e na água até os peitos. [...] Por todas essas razões, nomeei-o, por ato de 3 de maio corrente, diretor do Passeio Público.”

Taunay também saudou, “com os maiores louvores”, as contribuições de Ildefonso Pereira Correa e do engenheiro João Lazzarini, “que, na ausência do Sr. Fontana, tomaram a si a direção do serviço do Passeio Público, e me satisfizeram plena e completamente pela boa execução, que a tudo deram”. “A Câmara tem hoje, naquele engenheiro, um profissional de grande valor: Cumpre conservá-lo e aumentar-lhe os vencimentos”, avaliou.

“Quanto ao saneamento geral da cidade, cimentação dos passeios, arborização das ruas e praças, proibições de abusos, imposição de multas, muito procuramos, eu e a Câmara Municipal, fazer, e, se nem tudo conseguimos, deixamos mais ou menos implantado o sentimento de que os nossos esforços eram todos no sentido do bem geral”, ponderou.

O novo presidente da Província, Joaquim de Almeida Faria Sobrinho manteve Fontana na direção do Passeio Público e as obras tiveram continuidade. Nos próximos meses, o parque recebeu novos melhoramentos, como o plantio de mais espécies de árvores, a implantação de um portão na rua do Serrito (atual Presidente Carlos Cavalcante) e a construção de mais uma ponte.

As “importantes obras parciais” são inauguradas dia 8 de agosto, um domingo, às 15h30. Com direito a fogos e à apresentação da banda marcial, a “esplêndida e animada festa”, de acordo com a “Gazeta Paranaense”, não reuniu apenas autoridades, mas também pessoas de todas as classes sociais, sociedades e clubes locais.

De carrossel à eletricidade, Passeio Público marca inovações

Em relatório apresentado à Assembleia Provincial, dia 30 de outubro de 1886, Fontana justificou a busca por fontes de receita para atender à conservação do Passeio Público, por meio da implantação de “certos meios de diversão que, servindo de passatempo e recreio para o público, trouxessem também para o estabelecimento uma pequena renda”. O diretor do parque referia-se à instalação do carrossel, também chamado de “máquina de cavalinhos mecânicos”.

Sugerindo “muitos outros recreios lucrativos que poderão surgir no futuro”, Fontana estimou que o carrossel poderia representar uma renda mensal líquida de 80 mil réis. Entre as regras do novo divertimento público, determinadas por ato aprovado pelo presidente da Província, de 28 de agosto daquele ano, só era permitida a entrada de meninas e meninos de até 15 anos, desde que “decentemente trajados”. O ingresso individual, pelo período de 10 minutos, era de 100 réis.

Na noite de um domingo, dia 19 dezembro de 1886, data da celebração da Emancipação da Província, o Passeio Público foi palco de mais um acontecimento local. Antes iluminado apenas por lampiões a gasolina, “a obra mais importante desta capital” recebeu as primeiras lâmpadas elétricas de Curitiba. Conforme a “Gazeta Paranaense”, a demonstração reuniu mais de 3 mil pessoas.

“Quando a noite começava a cair, o povo dirigindo-se para o Passeio Público, ali foi admirar o deslumbrante espetáculo de luzes subordinada ao bico luminoso de uma lâmpada elétrica”, disse o jornal. “A concorrência de famílias e de cavalheiros foi imensa, e o Passeio parecia insuficiente para conter o povo, que apreciava tão esplêndido efeito.”

Fechamento do Passeio Público provoca reação popular

Graças à realização de atividades como concertos musicais, festas cívicas, manifestações e reuniões populares, como os meetings organizados pela Confederação Abolicionista Paranaense, o Passeio Público ganhou espaço, ainda em seus primeiros anos de funcionamento, como ponto de encontro da população curitibana. Exemplo disso foi a reação popular em consequência do desentendimento entre Francisco Fasce Fontana e o recém-empossado presidente da Província, Balbino Cândido da Cunha.

Em troca de ofícios com a Secretaria do Tesouro Provincial, entre o fim de julho e o começo de agosto de 1888, o industrial do mate acusou “a demora de pagamento de funcionários daquele estabelecimento”. Fontana afirmou que os salários estavam atrasados há sete meses e que os “poucos trabalhadores” ameaçavam deixar o emprego. Tampouco haveria pessoas interessadas em prestar seus serviços. “O Passeio Público já tem entrado em decadência por falta de conservação e, se não se tomam medidas urgentes, em pouco tempo se perderá o fruto de muito sacrifício, de muito trabalho, de muita dedicação”, sustentou.

Em resposta ao diretor, Cunha argumentou que as contas provinciais enfrentavam crise financeira, naquele semestre, mas contestou que o Passeio, “logradouro público que cada vez se torna mais belo e apreciável”, tivesse entrado em decadência. Como resultado, Fontana anunciou, no dia 2 de agosto de 1888, que havia decidido fechar o parque à população e “abandoná-lo a seu destino”, bem como deixar o cargo. Segundo noticiado pelo “Dezenove de Dezembro”, a medida foi tomada após demissão coletiva dos funcionários

“Ignoramos, pois, qual a verdadeira causa que determinou o fechamento do Passeio Público, privando grande parte da população a frequentá-lo ontem, domingo, tanto mais quanto fora anunciado que ali tocariam duas bandas de música”, criticou, dias depois, o jornal “A Republica”. O resultado, de acordo com o noticiado, foi uma grande confusão:

O povo, em grande número aglomerado em frente ao portão que corresponde à rua do Saldanha, forçou-o de modo a abri-lo, mas as bandas de música retiraram-se. Convém, portanto, evitar a reprodução de tão estranho alvitre” —  aconselhou a publicação, preocupada, inclusive, com a imagem perante os “hóspedes que visitam esta capital [turistas].

Meses depois, já na República Velha, o segundo governador do Paraná daquele período, José Marques Guimarães, delegou os serviços de conservação do Passeio e da iluminação pública à Câmara de Curitiba, por meio de decreto assinado dia 23 de dezembro de 1889. A partir de 1895, por sua vez, as despesas com o Passeio e outras questões da municipalidade, como a limpeza das ruas, coleta de lixo e iluminação pública, ficaram sob a responsabilidade da Prefeitura.

** Confira aqui as referências da reportagem especial do Nossa Memória.