Aprovado projeto de conscientização sobre a insuficiência istmocervical

por Pedritta Marihá Garcia | Revisão: Gabriel Kummer* — publicado 01/04/2026 13h40, última modificação 01/04/2026 14h45
Data comemorativa foi proposta por Laís Leão (PDT) para dar visibilidade à situação de mulheres grávidas que sofrem abortos tardios ou partos prematuros.
Aprovado projeto de conscientização sobre a insuficiência istmocervical

A data sugerida pela vereadora para o Dia de Conscientização sobre a insuficiência istmocervical é 27 de maio. (Foto: Rodrigo Fonseca/CMC)

Curitiba terá em seu Calendário Oficial de Eventos o Dia Municipal de Conscientização sobre a Insuficiência Istmocervical (IIC). A doença ocorre quando o colo do útero da mulher não consegue se manter fechado durante a gestação, o que pode levar a um aborto tardio ou a parto prematuro. O projeto de lei que propôs a data comemorativa foi aprovado pela Câmara Municipal de Curitiba (CMC) nesta quarta-feira (1º) em primeiro turno, com 25 votos favoráveis.

A proposta é de autoria de Laís Leão (PDT) e foi apresentada com o objetivo de promover o debate público e dar visibilidade à situação das mulheres grávidas que acabam tendo abortos tardios ou partos prematuros (005.00574.2025). Conforme dados da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), nos anos de 2023 e 2024 foram registrados 12 óbitos perinatais relacionados à IIC na rede pública de saúde da capital paranaense.

O Dia de Conscientização sobre a Insuficiência Istmocervical visa promover a conscientização sobre a doença, estimular a reflexão, o acolhimento, a difusão de informações sobre a IIC e as suas consequências para a saúde reprodutiva de mulheres. O projeto também prevê o incentivo a ações preventivas voltadas à prevenção da perda gestacional para contribuir para o fortalecimento da rede de apoio às mães e aos familiares que vivenciam o luto gestacional.

O que é a IIC e quais são os tratamentos existentes?

A insuficiência istmocervical é uma condição em que o colo do útero não consegue se manter fechado durante a gestação, o que pode levar a abortos tardios e partos prematuros, caracterizando uma gravidez de alto risco. O quadro clínico mais comum envolve histórico de perdas gestacionais recorrentes, geralmente no mesmo período da gravidez, com dilatação do colo uterino, ruptura das membranas e expulsão rápida do feto, muitas vezes com pouca dor ou sangramento.

O diagnóstico é feito principalmente pela história clínica da paciente e pode ser complementado por exames, como ultrassom durante a gestação, que pode identificar alterações no colo do útero, embora o colo curto isoladamente não confirme a doença. A dilatação costuma ser indolor, fazendo com que muitas mulheres só identifiquem a condição após perderem o bebê.

O tratamento padrão da IIC é a cerclagem, procedimento cirúrgico que consiste na sutura do colo do útero para mantê-lo fechado, sendo mais indicado entre a 12ª e a 16ª semana de gestação, podendo ser realizado em até cerca de 25 semanas. A técnica mais utilizada é a de McDonald, por apresentar menor risco, embora não haja evidência de superioridade entre os métodos.

O procedimento exige avaliação cuidadosa, pois há contraindicações, como presença de contrações, sangramento ou sofrimento fetal. Quando indicado e realizado no momento adequado, o tratamento pode prolongar a gestação e aumentar significativamente as chances de sobrevivência do feto, reforçando a importância do diagnóstico precoce e do acompanhamento especializado.

“Lei Bárbara Mattos”: conheça a inspiração para o projeto

A data sugerida para o dia de conscientização sobre a IIC é 27 de maio e foi fixada via emenda modificativa, aprovada com 26 votos “sim” (034.00088.2025). O dia escolhido por Laís Leão é alusivo ao dia do parto de Bárbara Mattos, que morreu ainda no útero da mãe, em 2023. Gabriella Cogo Nickel só descobriu sua condição clínica após o aborto tardio, e então iniciou uma mobilização por políticas públicas que possam evitar que outras mulheres passem pela mesma dor.

Após estudar sobre a IIC, essa mãe descobriu que há formas simples, acessíveis e indolores de identificar precocemente essa condição, como o exame da vela de Hegar, mas que esses métodos são pouco divulgados e, frequentemente, só são disponibilizados pelo SUS após múltiplas perdas gestacionais”, relatou Laís Leão. A história de Gabriella Cogo Nickel inspirou o protocolo do projeto de lei, que foi apelidado pela vereadora de “Lei Bárbara Mattos”.

É um projeto que é capaz de mudar a realidade de Curitiba, de salvar vidas e de evitar o sofrimento de muitas famílias, de muitas mulheres”, enfatizou a vereadora. Além da história de Gabriella Cogo Nickel, que teve o relato exibido em plenário, Laís Leão também contou a experiência vivenciada por Gabriele Costa Chagas, que recebeu o diagnóstico correto da doença com 22 semanas de gestação, passou pelo tratamento e conseguiu salvar seu bebê. Caetano nasceu com 28 semanas, prematuro extremo, e permaneceu na UTI Neonatal por 50 dias.

A iniciativa foi elogiada por vereadores e vereadoras em plenário. Pai de duas filhas, Marcos Vieira (PDT) destacou a importância de promover a conscientização sobre uma doença que é pouco conhecida. Rafaela Lupion (PSD) reforçou que, se a “Lei Bárbara Mattos” salvar apenas uma vida, já será válida. Meri Martins (Republicanos) afirmou que não tinha conhecimento da IIC e cumprimentou Laís Leão pela sensibilidade em propor o projeto de lei. Ela foi a relatora do texto na Comissão de Saúde e Bem-Estar.

Carlise Kwiatkowski (PL) analisou que a matéria demonstra a “importância da participação da mulher na política”, ao ser voltada a um tema que toca diretamente a realidade das mulheres. Outra a se manifestar favorável à criação do dia de conscientização foi Giorgia Prates - Mandata Preta (PT). A vereadora afirmou que “toda a sociedade precisa entender e saber sobre isso”. Indiara Barbosa (Novo) e Renan Ceschin (Pode) também declararam apoio a iniciativas como essa, que visam incentivar a prevenção e o tratamento de doenças.

O projeto de lei ainda precisa passar por uma segunda votação, na próxima segunda-feira, 6 de abril, antes de seguir para sanção prefeitoral.

*Notícia revisada pelo estudante de Letras Gabriel Kummer
Supervisão do estágio: Ricardo Marques