Curitiba ainda não é segura para mulheres, dizem especialistas

por Julia Yamane*, especial para CMC — publicado 10/03/2026 09h38, última modificação 10/03/2026 09h38
Promovida pela vereadora Laís Leão, a audiência “Mulheres, Cidade e Segurança” abordou temas como mobilidade e desigualdade de gênero em Curitiba.
Curitiba ainda não é segura para mulheres, dizem especialistas

Desigualdade no planejamento urbano, transporte público e violências pautaram a audiência pública na Câmara. (Foto: Carlos Costa/CMC)

Enquanto a cidade não for segura para uma mulher negra, não será segura para nenhuma mulher. Sem iluminação adequada, as favelas da cidade não são seguras nem para mulheres, nem para o lazer das crianças. 60% dos usuários do transporte público são mulheres, expostas ao assédio dentro dos ônibus. Todos esses relatos fizeram parte, na última quinta-feira (5), da audiência pública realizada pela vereadora Laís Leão (PDT) na Câmara Municipal de Curitiba (CMC).

A audiência foi em alusão ao Dia Internacional das Mulheres e contou com a presença de três convidadas, representantes do Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), da UFPR (Universidade Federal do Paraná) e da sociedade civil organizada. O evento foi realizado no auditório da Câmara e foi transmitido ao vivo no YouTube do Legislativo, com debates sobre temas que variaram de segurança à mobilidade das mulheres na cidade (407.00002.2026).

“Pensar soluções voltadas às mulheres é pensar uma cidade igualitária”

Laís Leão coordenou a audiência com a intenção de ouvir sobre diferentes vivências da população feminina na cidade, debatendo “dramas e desigualdades que permeiam as vidas das mulheres”. “O neutro não existe. A perspectiva neutra é uma perspectiva de quem está muito confortável. Ela não vai endereçar quem de fato precisa [das políticas públicas]”, afirmou. O objetivo do encontro é planejar políticas públicas para que “tudo o que compõe a cidade seja devidamente seguro para todas nós”.

Ao falar de cidade e planejamento urbano, a diretora de projetos do Ippuc, Daniela Mizuta, apontou que a cidade é um organismo vivo e que, para a realização da gestão urbana, é necessário pensar com base na perspectiva de gênero, deixar de visualizar as mulheres como uma política setorial e passar a enxergá-la como uma política transversal.

“Ela [política transversal de gênero] precisa permear diferentes temas do planejamento urbano, seja habitação, mobilidade e desenho da cidade. Ao pensar nesse desenho, pensamos em soluções voltadas à mulher, e, assim, temos uma cidade igualitária para todos”, afirmou Daniela Mizuta, cujos exemplos práticos trataram do transporte público em Curitiba.

Citando a Política Nacional de Mobilidade Urbana, a diretora de projetos do Ippuc afirmou que estudos apontam que as mulheres são 60% dos usuários do transporte público de Curitiba, logo “é importante falar sobre perspectiva de gênero para o deslocamento”. “Se um ônibus [atrasar] demorar 40 minutos para chegar, isso vai aumentar o tempo de profunda agonia que essa mulher vai passar esperando, muitas vezes sozinha, rezando para não acontecer nada e ela chegar segura em casa”, acrescentou Laís Leão.

Melhoria da iluminação pública pautou discussões durante a audiência

Líder comunitária do Parolin e idealizadora da Usina de Ideias, Andreia Lima trouxe à audiência pública o tema da segurança pública em Curitiba. “Ser mulher periférica não é fácil. As favelas dessa cidade não são preparadas, não têm iluminação e nem preparo para o lazer das crianças. Em vários espaços não estamos seguras, precisamos estar atentas. Nós pagamos conta de luz e no Parolin não há iluminação”, protestou.

Dialogando com Andreia Lima, a diretora de projetos do Ippuc, enumerou medidas que poderiam ser tomadas para reduzir o sentimento de insegurança relatado pela moradora do Parolin. Daniela Mizuta citou, como possibilidades, a redução da área destinada para veículos, o aumento da iluminação e da área de circulação das calçadas.

Para Geisa Bugs, professora da Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), as cidades devem proteger os trajetos das mulheres e não restringir seu desenvolvimento. “No caso das mulheres, elas evitam certas rotas, linhas de ônibus e roupas. São as táticas de autoproteção, com custos invisíveis. Mulheres deixam de aceitar oportunidades de trabalho e estudo se o deslocamento envolve áreas perigosas”, descreveu.

Bugs ainda reforçou algumas medidas de segurança para mulheres que envolvem policiamento, transporte, políticas intersetoriais e transversais, escuta ativa das mulheres, mas, sobretudo, campanhas de conscientização e educação.

“Corpos femininos são corpos sem paz” 

Durante a audiência, também foram abordadas questões relacionadas ao feminicídio e à violência contra as mulheres, apontadas pelas participantes como problemas estruturais e ainda subnotificados. Nos relatos apresentados, foi ressaltado que muitas mulheres são mortas dentro de casa e que a violência de gênero ainda é tratada com descaso

As falas também destacaram a necessidade de uma mudança cultural, com maior conscientização dos homens sobre o respeito às mulheres. “Corpos femininos são corpos sem paz”, resumiu uma das participantes ao apontar que enfrentar a violência exige transformar estruturas sociais que naturalizam diferentes formas de agressão.

“Precisamos ficar atentas aos abusadores que abordam as nossas crianças. Não estamos seguras em vários espaços... O problema é cultural e precisamos mudar essa estrutura, não podemos passar por todos esses tipos de violência e de descaso”, desabafou Andreia Lima. 

*Notícia elaborada pela estudante de Jornalismo Julia Yamane, especial para a CMC
Supervisão do estágio e edição: José Lázaro Jr

Edição: José Lázaro Jr.
Revisão: Ricardo Marques