Audiência na CMC mostra apoio social a aulas de defesa pessoal para mulheres
A audiência pública foi transmitida ao vivo pelo canal da Câmara de Curitiba no YouTube. (Fotos: Kim Tolentino/CMC)
“Eu vivi isso.” Foi a partir da experiência pessoal transformada em ação coletiva que a idealizadora do movimento Golpes da Liberdade, Maíra Bandeira, defendeu, em audiência pública na Câmara Municipal de Curitiba (CMC), a ampliação de aulas de defesa pessoal para mulheres e meninas como ferramenta de prevenção à violência. Ao reunir praticantes de artes marciais, lideranças sociais, representantes de projetos comunitários e agentes públicos, o encontro deu visibilidade a uma pauta que, ao longo da tarde, foi apresentada menos como atividade esportiva isolada e mais como estratégia de autonomia, proteção e fortalecimento feminino.
Proponente da audiência, a vereadora Meri Martins (Republicanos) sustentou que o debate nasce da necessidade de tratar a segurança da mulher para além da repressão e do atendimento posterior aos casos de violência. “Precisamos falar da defesa pessoal que fortalece esta mulher de dentro para fora”, afirmou, ao abrir o encontro. A parlamentar também destacou a presença de mulheres de diferentes modalidades, como judô, caratê, kung fu, muay thai e jiu-jítsu, num ambiente em que a defesa pessoal apareceu ligada à confiança, à consciência corporal e ao direito de ocupar a cidade com mais segurança.
Na mesma direção, o deputado estadual Alexandre Amaro (Republicanos), que Meri Martins afirmou apoiar a pauta, reforçou brevemente a importância das artes marciais como instrumento de escape em situações de risco. “A mulher, nesse espaço de tempo, ela precisa sair do ambiente”, disse, ao defender que o aprendizado básico pode ajudar a romper o estado de paralisia diante de uma ameaça. Após as falas iniciais, a audiência se concentrou sobretudo nas falas de mulheres, que trouxeram para o centro do debate a vivência, a prevenção e a construção de saídas concretas.
Da experiência vivida à proposta dos Golpes da Liberdade
Ao apresentar o movimento Golpes da Liberdade, Maíra Bandeira associou sua trajetória pessoal à formulação de uma proposta mais ampla de segurança feminina. “Eu nasci em 1996 e, aos cinco anos, eu fui vítima de violência sexual”, relatou. “Foi no tatame, através das artes marciais, que eu encontrei a ferramenta que me deu força pra superar o medo”, disse. Ela explicou que a proposta levada à Câmara busca articular proteção, formação e capilaridade territorial.
“A gente vai unir a tecnologia, a lideranças regionais e a infraestrutura que já existe”, afirmou Maíra Bandeira, ao defender um modelo baseado em medição da sensação de segurança, formação de multiplicadoras e uso de estruturas públicas já disponíveis. Segundo a idealizadora do Golpes da Liberdade, a metodologia que ela vem desenvolvendo alcançou mais de 25 mil mulheres, mas ainda é insuficiente diante da dimensão do problema. “A minha ideia é que a gente chegue em 1 milhão de pessoas em cinco anos com essa expansão”, declarou.
A proposta apresentada inclui um aplicativo para mapear a percepção de segurança feminina, identificar áreas mais vulneráveis e orientar intervenções em rede. Também prevê a capacitação de lideranças e a criação de polos de atendimento com aulas voltadas à defesa da mulher, orientação psicológica e apoio jurídico. “Essa base de atendimento inclui um tatame, onde a gente vai ter aulas de artes marciais ali, focadas em defesa da mulher, atendimento psicológico voltado pra isso e atendimento jurídico voltado pra isso”, explicou.
Participação social reforçou defesa pessoal como política pública
Ao longo da audiência, a presença de atletas, professoras, praticantes de artes marciais e representantes de projetos locais ajudou a reforçar o caráter coletivo do debate. Sentaram à mesa a atleta e árbitra Nadine Furtado e a lutadora Eliandra Aparecida de Oliveira, do Karatê Shubu-dô. Ao saudar mulheres de diferentes modalidades presentes no plenário, Meri Martins insistiu na ideia de identificação e pertencimento. “A melhor arte marcial é aquela que você se identifica”, afirmou, ao defender que o importante é o acesso a uma prática que gere bem-estar, confiança e resultado “no corpo e na mente”.
Representando a Secretaria Municipal do Esporte, Lazer e Juventude, José Severiano Machado Neto informou que a Prefeitura incorporou a defesa pessoal ao projeto Curitiba Mulheres em Movimento, vinculado ao programa Curitiba Mais Mulher. “Até o fim da gestão do nosso prefeito Eduardo Pimentel, nós teremos disponibilizados em todas as dez regionais, a defesa pessoal”, afirmou. Segundo ele, as atividades já estão disponíveis nas regionais Boa Vista, Matriz e Portão, com expansão prevista para os meses seguintes.
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Na etapa final da audiência, a diretora de Políticas Públicas para Mulheres de Curitiba, Aline Bettenhauser, apresentou a estrutura institucional já existente no município para atendimento e acompanhamento de mulheres em situação de violência. “Nós atendemos mais de 300 pessoas por dia lá”, disse, ao se referir à Casa da Mulher Brasileira de Curitiba, que classificou como referência nacional.
Aline detalhou que o equipamento reúne atendimento psicossocial, Delegacia da Mulher, Defensoria Pública, Ministério Público, Juizado de Violência Doméstica, alojamento de passagem e atuação da Patrulha Maria da Penha. Também mencionou o funcionamento do CRAM na região Sul e a articulação da rede entre saúde, segurança, educação e sistema de Justiça.
Debate mira escolas, bairros e ampliação do acesso
No encerramento, Meri Martins retomou a ideia de expansão e defendeu que a pauta avance para além do debate público, chegando de forma mais estável aos territórios e ao ambiente escolar. “A gente vai fomentar cada vez mais para que isso venha a crescer e estar dentro das escolas”, afirmou. Com forte presença de mulheres ligadas às artes marciais, relatos de experiência e apresentação de propostas de escala, a audiência pública mostrou apoio social à ampliação das aulas de defesa pessoal em Curitiba e indicou que o tema começa a ganhar lastro não só institucional, mas comunitário.
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