“Doença celíaca não é mimimi”, diz Acelpar na Câmara de Curitiba

por José Lázaro Jr. | Revisão: Gabriel Kummer* — publicado 20/05/2026 17h10, última modificação 20/05/2026 17h22
No mês de conscientização sobre a doença celíaca, Tribuna Livre debateu alimentação segura, diagnóstico e políticas públicas.
“Doença celíaca não é mimimi”, diz Acelpar na Câmara de Curitiba

Presidente da Acelpar, Giseli da Silveira pediu atenção dos veradores à doença celíaca. (Fotos: Carlos Costa/CMC)

A frase “doença celíaca não é mimimi” resumiu a mensagem levada à Câmara Municipal de Curitiba (CMC) pela presidente da Associação dos Celíacos do Paraná (Acelpar), Giseli da Silveira Vilela da Silveira, durante a Tribuna Livre desta quarta-feira (20). No mês de conscientização sobre a doença celíaca, a convidada defendeu que a condição seja tratada como tema de saúde pública, inclusão social e direito à alimentação segura.

A atividade foi requerida pela Comissão de Direitos Humanos, Defesa da Cidadania, Segurança Pública e Minorias, presidida por Delegada Tathiana Guzella (PL), que saudou a convidada em nome da Casa e destacou a importância de ampliar a informação sobre a doença. A vereadora afirmou que a falta de conhecimento ainda expõe pessoas celíacas a riscos no cotidiano e relatou a experiência familiar com restrições alimentares. “Só quem tem em casa um celíaco sabe quão grave é essa doença”, disse.

No requerimento que motivou a Tribuna Livre, a comissão destacou que a doença celíaca é um distúrbio autoimune crônico desencadeado pela ingestão de glúten e que, sem diagnóstico ou tratamento adequado, pode causar desnutrição, anemia, infertilidade, osteoporose, comprometimentos neurológicos, aumento do risco de câncer intestinal e impactos na saúde mental. A justificativa também relaciona a pauta ao direito à saúde, à alimentação segura, à inclusão social e à proteção contra discriminação.

Não estamos falando de uma simples intolerância alimentar, de uma alergia alimentar ou de qualquer outro problema relacionado à comida. Estamos falando de uma doença autoimune”, afirmou Giseli da Silveira. Segundo ela, o tratamento da doença celíaca depende da exclusão total do glúten, com atenção permanente à contaminação cruzada, situação em que alimentos originalmente sem glúten entram em contato com superfícies, utensílios ou ingredientes contaminados.

Acelpar quer política pública para celíacos

Durante a fala, Giseli da Silveira anunciou que a Acelpar pretende protocolar na Câmara um pré-projeto para criar uma política pública municipal voltada às pessoas com doença celíaca e aos empreendedores sem glúten. A proposta, segundo ela, busca reunir medidas relacionadas à alimentação segura, ao diagnóstico, à fiscalização, à inclusão em escolas, hospitais, eventos e estabelecimentos comerciais.

“Em nome de um por cento da população, eu e a Fernanda, a presidente e a vice-presidente da Associação dos Celíacos do Paraná, vamos protocolar na Câmara Municipal de Curitiba o primeiro pré-projeto da primeira política pública curitibana para portadores da doença celíaca e empreendedores sem glúten”, anunciou.

A presidente da Acelpar relatou dificuldades enfrentadas por celíacos em diferentes situações do cotidiano, como escolas, hospitais, restaurantes, supermercados, eventos públicos, feiras, shoppings e espaços de lazer. Ela também citou jovens que saem à noite e não encontram opção segura de alimentação, já que alimentos vendidos na rua podem conter glúten ou ser preparados em bancadas contaminadas.

Precisamos insistir com as pessoas que nós também temos este direito. Precisamos ensinar sobre o direito do consumidor celíaco para esta ou aquela empresa”, disse Giseli da Silveira. Ela também relatou que a Acelpar recebe, em média, chamados de hospitais que ainda não cumprem a legislação sobre alimentação segura a pacientes internados.

Contaminação pode reativar inflamação intestinal

Um dos pontos centrais da apresentação foi a diferença entre doença celíaca e sensibilidade não celíaca ao glúten. Giseli da Silveira explicou que, na sensibilidade, a ingestão de glúten pode provocar sintomas e mal-estar, mas não caracteriza doença autoimune. Já na doença celíaca, a contaminação reativa o processo inflamatório e causa danos ao intestino delgado.

“Na doença celíaca, a partir do momento que uma pessoa se contamina, ela ativa esta doença, que degrada as microvilosidades do intestino delgado. E esse é o grande perigo e o grande problema”, afirmou. Ela explicou que a consequência não se limita a sintomas imediatos, como diarreia, vômitos, constipação, enxaqueca ou névoa mental, mas pode envolver inflamação intestinal prolongada e dificuldade de absorção de nutrientes.

Giseli da Silveira também alertou que há pessoas celíacas assintomáticas, que não percebem reações após ingerir glúten, mas ainda assim podem sofrer danos intestinais. “Só um pouquinho também faz mal. Não pode nem um pouquinho. Não é uma dieta da moda, não é porque eu resolvi fazer isso agora. Não é mimimi, não é frescura. É uma doença autoimune”, reforçou.

Vereadoras relatam impacto nas famílias

A discussão também mobilizou relatos pessoais de vereadoras. Delegada Tathiana Guzella perguntou quais sintomas podem indicar a doença celíaca e que cuidados devem ser tomados em caso de crise. Ao final da Tribuna Livre, ela também destacou projetos em tramitação na Câmara relacionados à identificação de glúten e lactose em estabelecimentos que servem alimentos.

Camilla Gonda (PSB) relatou que a mãe tem doença celíaca e que o diagnóstico representou um recomeço para a família. A vereadora citou estabelecimentos sem glúten de Curitiba e pediu que Giseli da Silveira comentasse o papel da Acelpar na fiscalização, especialmente em escolas e hospitais. Segundo ela, ainda chegam ao gabinete casos de crianças sem alimentação adequada em instituições de ensino.

Laís Leão (PDT) também afirmou que a mãe descobriu a doença celíaca depois dos 40 anos, após conviver desde jovem com problemas de saúde sem explicação, como osteoporose precoce. “Restrição alimentar não é frescura, não é brincadeira, não é gente sendo chata. Restrição alimentar é saúde”, disse a vereadora.

Meri Martins (Republicanos), que conduziu parte dos trabalhos, pediu que a presidente da Acelpar explicasse os riscos da contaminação por glúten para pessoas celíacas. Em resposta, Giseli da Silveira reforçou que a ingestão, mesmo involuntária, pode reativar a inflamação intestinal e comprometer a absorção de nutrientes, inclusive em pacientes sem sintomas aparentes.

Escolas, hospitais e eventos foram citados

A alimentação segura de crianças foi uma das preocupações mais repetidas durante a Tribuna Livre. Sidnei Toaldo (Avante), presidente da Comissão de Saúde, citou projeto de sua autoria que dispõe sobre o direito de estudantes com doença celíaca levarem o próprio alimento para instituições de ensino públicas ou privadas (005.00349.2025). Segundo ele, a iniciativa foi motivada pelo caso de uma mãe de Araucária que teria sido proibida de levar alimento seguro para o filho na escola.

Giseli da Silveira afirmou que a política pública defendida pela Acelpar também deve tratar do fornecimento de alimentação sem glúten pelas escolas, inclusive quando houver necessidade de contratação terceirizada ou compensação na mensalidade. “Estamos falando não só de vida digna, de alimentação segura, de direito à saúde, mas estamos falando de crianças que precisam de uma alimentação segura e sem glúten para conseguir se desenvolver de forma adequada”, disse.

Também foram mencionadas propostas relacionadas ao direito de pessoas com doença celíaca, alergias alimentares severas ou outras restrições alimentares de portar e consumir o próprio alimento em espaços de uso coletivo, quando não houver opção segura disponível. Giorgia Prates - Mandata Preta (PT) afirmou que a iniciativa foi construída a partir do diálogo com a Acelpar e defendeu que o tema seja tratado como questão de segurança e dignidade.

Fiscalização e acesso a alimentos sem glúten

Ao responder a Camilla Gonda, Giseli da Silveira afirmou que a fiscalização ainda é um dos grandes desafios para garantir a efetividade das leis. Ela citou problemas em supermercados, como prateleiras exclusivas para alimentos sem glúten organizadas de forma inadequada, e disse que a Acelpar atua a partir de denúncias de associados.

“Temos mais de mil fiscais no Paraná, que são os nossos associados. Sempre que existe algo errado, eles acionam a Acelpar. E a Acelpar imediatamente aciona o poder público, a vigilância sanitária, a Delcon, o Ministério Público, o Procon, ou seja lá quem for o responsável”, afirmou.

Vanda de Assis (PT) trouxe ao debate a situação de pessoas em vulnerabilidade econômica, para quem o custo dos alimentos sem glúten pode dificultar o tratamento. Giseli da Silveira respondeu que os Armazéns da Família contam com prateleira exclusiva para alimentos sem glúten e que, para o acesso de pessoas celíacas, basta a apresentação de laudo médico, sem necessidade de comprovação de renda. Ela também citou o projeto social AMA, mantido pela Acelpar, que oferece auxílio em alimentos ou cartão de mercado a famílias em situação de vulnerabilidade.

Diagnóstico pode levar anos

A presidente da Acelpar descreveu a doença celíaca como “doença camaleão”, por poder se manifestar de diferentes formas. Além de sintomas gastrointestinais, como diarreia, vômitos, náusea, constipação e distensão abdominal, ela citou manifestações extraintestinais, como enxaqueca, névoa mental, dificuldade para engravidar, abortos, problemas de crescimento, alterações neurológicas e dificuldades cognitivas.

Segundo Giseli da Silveira, essa variedade de sintomas contribui para atrasar o diagnóstico. Ela afirmou que muitas pessoas podem levar cinco ou seis anos para receber a confirmação correta da doença. Por isso, defendeu que a conscientização alcance também profissionais da atenção básica, para que médicos possam suspeitar da doença diante de sinais como dificuldade de crescimento, falta de apetite, diarreia recorrente, enxaqueca ou problemas de desenvolvimento infantil.

Na saudação final, Delegada Tathiana Guzella agradeceu a presença da Acelpar, dos associados e das pessoas que acompanharam a Tribuna Livre. A vereadora afirmou que a Comissão de Direitos Humanos está aberta ao diálogo com a entidade e com as pessoas celíacas. “Podem sempre contar com essa comissão e também com os demais vereadores da Casa”, disse.

Ao final, Giseli da Silveira afirmou que o diagnóstico não deve ser visto apenas como uma restrição, mas como uma oportunidade de cuidado. “O diagnóstico da doença celíaca é um diagnóstico de vida. É um diagnóstico de mais saúde, de novas oportunidades e também de recomeços. Só que, desta vez, mais felizes, mais saudáveis e principalmente mais inclusivos”, concluiu.

*Notícia revisada pelo estudante de Letras Gabriel Kummer
Supervisão do estágio: Ricardo Marques