Tribuna do Povo ouve 14 curitibanos sobre assuntos de Curitiba

por José Lázaro Jr. — publicado 28/03/2026 18h03, última modificação 28/03/2026 18h03
Com recorde de 51 inscrições, edição do Câmara Aberta reuniu moradores no Palácio Rio Branco para apresentar críticas, propostas e sugestões diretamente ao Legislativo.
Tribuna do Povo ouve 14 curitibanos sobre assuntos de Curitiba

Participações na Tribuna do Povo são tabuladas pela Ouvidoria da CMC e repassadas aos vereadores. (Fotos: Rodrigo Fonseca/CMC)

A Câmara Municipal de Curitiba (CMC) realizou, neste sábado (28), mais uma edição da Tribuna do Povo, atividade integrada ao programa Câmara Aberta e voltada à apresentação de ideias, críticas e sugestões diretamente ao Legislativo. Realizada das 12h às 13h, no plenário do Palácio Rio Branco, a iniciativa teve recorde de 51 inscrições, das quais foram sorteados 20 participantes titulares e 10 suplentes, com 14 comparecimentos. Cada um deles pôde usar a palavra por até 1 minuto e 30 segundos.

>> Confira a cobertura fotográfica da Câmara Aberta no Flickr da CMC

Na abertura da atividade, o presidente da CMC, Tico Kuzma (PSD), destacou que a Tribuna do Povo surgiu com a criação do Câmara Aberta, ao lado de outras ações de atendimento, seminários e serviços ofertados aos sábados. A coordenação da atividade coube à Ouvidoria do Legislativo, na pessoa do ouvidor Antônio Borges dos Reis. Os vereadores Bruno Rossi (Agir), Serginho do Posto (PSD), Indiara Barbosa (Novo), Olimpio Araujo Junior (PL), Sargento Tânia Guerreiro (Pode), Delegada Tathiana Guzella (União), Camilla Gonda (PSB) e Nori Seto (PP).

Transporte, mobilidade e uso do espaço urbano

Ao abrir as manifestações sobre mobilidade, Eduarda Vieira dos Santos defendeu melhorias no transporte coletivo de Curitiba, com foco na segurança dentro e fora dos ônibus e no acesso dos estudantes à tarifa. Segundo ela, a capital, que já foi referência na área, precisa enfrentar problemas que afetam diretamente a rotina de quem depende do sistema para estudar e trabalhar. “Investir em transporte é garantir a dignidade para quem depende dele todos os dias”, disse.

Na sequência, Guilherme de Almeida Júnior levou à Tribuna do Povo uma proposta voltada à integração entre Curitiba e a Região Metropolitana. Ele citou dificuldades enfrentadas por usuários no uso do cartão Metrocard no retorno das viagens e pediu a interoperabilidade do sistema. “O usuário da Região Metropolitana acessa normalmente a Rede Integrada de Transporte, mas no retorno não consegue utilizar o mesmo cartão. Trata-se de um ajuste operacional com potencial de trazer mais eficiência ao sistema e facilidade aos usuários”, alertou.

Também falando sobre o transporte coletivo, Igor Henrique Azevedo da Silva relatou situações de desconforto e insegurança nos ônibus, especialmente nos veículos biarticulados. Ele mencionou episódios envolvendo usuários de drogas, pessoas em sofrimento mental, lixo acumulado e o uso do fundo dos articulados para dormir ou armazenar materiais. Silva declarou que “muitos usuários do transporte coletivo têm enfrentado situações de grande desconforto dentro dos ônibus”. 

Representando a comunidade nipo-brasileira, Everson Keiti Takayama abordou a situação da Praça do Japão e do Memorial da Imigração Japonesa. Ao reconstituir a história do espaço, ele defendeu uma revitalização mais ampla do conjunto, lembrando sua importância cultural para Curitiba. “A praça já tem 64 anos e o Memorial da Imigração, 33 anos. Já passaram por pequenas reformas, mas precisam de uma revitalização”, pediu.

Trabalho, atividade econômica e desenvolvimento

Entre as falas ligadas ao mundo do trabalho, Luan Henrique da Silva, que se apresentou como integrante do movimento Vida Além do Trabalho, defendeu o debate sobre o fim da escala 6x1. Ele sustentou que a discussão precisa envolver trabalhadores e empresários. “Nós precisamos discutir o trabalho. Principalmente, trazer os empresários, pequenos empresários, para a mesa de negociação”, afirmou.

A presidente do Instituto Paranaense da Mulher Contabilista, Elisete Ferreira de Carvalho, tratou da reforma tributária e do papel estratégico dos profissionais da contabilidade nesse processo de transição. Segundo ela, a mudança não será apenas legislativa, mas também cultural e operacional, exigindo maior protagonismo técnico da categoria. “A reforma tributária não é apenas uma mudança de leis, ela representa uma mudança de lógica, de cultura e de forma”, disse. Elisete Carvalho defendeu que “não há implementação eficaz da reforma tributária sem o protagonismo da contabilidade”.

Advogado com atuação em defesa do produtor rural, Maurício Gonçalves Tomé Júnior propôs a criação de uma semana de incentivo ao setor e sugeriu mecanismos para aproximar agricultores da Câmara, com fóruns, debates e ações de capacitação. Ao justificar a ideia, ele ressaltou a relevância histórica e econômica da produção agrícola para Curitiba. “Curitiba não pode esquecer quem construiu a base dessa cidade”, afirmou. Tomé Júnior disse que “Curitiba precisa, hoje, estabelecer critérios para que, de fato, esses produtores venham até esta Casa”.

Em nome de empresários de casas noturnas e restaurantes, Carlos Amaral reclamou da dificuldade para a obtenção de alvarás de funcionamento. Ele afirmou que muitos empreendedores investem na estrutura dos estabelecimentos, mas esbarram em entraves para regularizar a atividade e abrir as portas. “O alvará é difícil de ser tirado”, resumiu. O empresário alertou que “tenho vários amigos que têm casas noturnas, restaurantes, que hoje estão com as suas portas abertas, suas coisas montadas, e não têm essa liberdade de trabalhar fluidamente.”

Saúde, direitos sociais e participação cidadã

Ao fazer a primeira manifestação da Tribuna do Povo, Samuel Pereira de Camargo levou ao plenário uma crítica à revisão da Planta Genértica do IPTU, aprovada no fim de 2025, que ele chamou de aumento. Ele classificou a medida como excessiva para quem trabalha e paga impostos e elogiou os vereadores que votaram contra a proposta. “É inaceitável que nós paguemos mais imposto”, declarou. 

Na fala seguinte, Célio Borba combinou reclamações sobre o acesso à Câmara, críticas à falta de quórum em uma das sessões de março, e questionamentos sobre políticas urbanas e sociais. Ele também cobrou que Marielle Franco, vereadora carioca do PSOL, assassinada em 2018, possa denominar um logradouro de Curitiba, além de pedir mais consideração dos vereadores à condição das pessoas em situação de rua. “É uma situação degradante ter falta de moradia”, afirmou.

Também no campo das políticas públicas, Bruna dos Anjos questionou os dados de apoio popular ao protocolo de internação involuntária e pediu fiscalização sobre o que ocorre com as pessoas após o internamento. Ao relatar sua própria experiência, ela afirmou enfrentar longa espera por atendimento psicológico em Curitiba. “Minha pergunta é: quem confirma esses números? Falo por mim, pois aguardo há dois anos um encaminhamento para psicóloga”, disse.

Ao abordar um tema pouco frequente no debate público, Shirley Ordônio pediu atenção às doenças raras e à necessidade de protocolos adequados no atendimento de urgência, para evitar a administração de medicamentos contraindicados. Ao defender maior sensibilização sobre o tema, ela lembrou que, embora incomuns, essas doenças afetam milhares de pessoas. “Eu vim aqui falar de um assunto que quase ninguém fala, que são as doenças síndromes raras. Eu gostaria de pedir a esta Casa uma atenção para as doenças incomuns raras”, afirmou.

Com uma fala mais ampla sobre a atuação do Legislativo, Arthur Cavalari cobrou prioridade para temas como plano de carreira da Guarda Municipal, valorização de professores e enfrentamento à violência de gênero. Ele criticou discursos discriminatórios no ambiente político e defendeu que a Câmara concentre esforços em pautas concretas para a cidade. “Discutir nesta Casa de Leis é primordial, não só para o desenvolvimento da cidade”, afirmou.

Juventude, educação e cultura

Entre as propostas apresentadas na Tribuna do Povo, a jovem Giovanna Vitória Vilela pediu um projeto de esporte e cultura nas escolas públicas, articulado a partir da escuta de jovens e educadores. Segundo ela, a iniciativa ampliaria oportunidades e fortaleceria a inclusão por meio de atividades esportivas e culturais. “Investir no esporte e cultura é investir na educação, na saúde mental e no futuro dos nossos jovens”, afirmou. Giovana defendeu que “a juventude precisa de oportunidade”.

Encerrando as manifestações, Crystofer Maia, com 14 anos de idade, apresentado como Crys Gaiteiro, usou a Tribuna do Povo para agradecer a oportunidade de falar na Câmara e divulgar seu trabalho artístico. Bicampeão paranaense de gaita-piano, ele terminou sua participação com uma breve apresentação musical. “Quero agradecer a oportunidade de eu estar aqui nessa tribuna, nessa belíssima Casa”, disse, emendando um “Feliz Aniversário” para Curitiba, que neste domingo completa 333 anos de fundação.