Câmara de Curitiba discute marco legal para sepultamentos em Curitiba

por José Lázaro Jr. | Revisão: Gabriel Kummer* — publicado 29/01/2026 08h44, última modificação 29/01/2026 08h44
Projeto do Executivo organiza permissões de uso de jazigos, fila pública e regularização de cadastros nos cemitérios municipais.
Câmara de Curitiba discute marco legal para sepultamentos em Curitiba

Criação de lei unificada para uso dos cemitérios municipais será debatida pela Câmara de Curitiba. (Foto: José Ogura/PMC)

A Câmara Municipal de Curitiba (CMC) analisa um projeto de lei do Executivo que busca estabelecer um marco legal para sepultamentos nos cemitérios públicos da cidade, com normas sobre administração, organização e permissões de uso de terrenos e jazigos. Na justificativa, o prefeito Eduardo Pimentel afirma que “não há lei editada para nortear as permissões de uso e ainda a administração e organização dos cemitérios municipais” (005.00802.2025).

Ao defender a proposta, a Prefeitura argumenta que regras hoje dispersas em atos infralegais e práticas antigas dificultam a gestão e podem gerar conflitos no momento do falecimento, pois “as permissões foram dadas assim como muitas autorizações para usar os jazigos, com e sem a anuência dos titulares das permissões e sem previsão legal”. Segundo o Executivo, são 32.555 permissões de uso registradas nos cemitérios municipais, distribuídas entre unidades como Água Verde, Boqueirão, Santa Cândida, São Francisco de Paula e Zona Sul. 

Gestão e regras passam a ser padronizadas pela SMMA

Pelo projeto, a gestão dos cemitérios municipais fica atribuída à Secretaria Municipal do Meio Ambiente (SMMA), com diretrizes para manter esses espaços como áreas seculares e de utilidade pública, além de prever estruturas específicas para sepultamentos de emergência e para pessoas carentes, em cemitérios determinados. Na prática, a proposta busca consolidar procedimentos que impactam diretamente os sepultamentos em Curitiba, como o atendimento às famílias e a destinação de lotes e gavetas.

O mecanismo de execução descrito pelo Executivo combina gestão administrativa, informatização e publicidade ativa. A permissão de uso, segundo o texto, será registrada em sistema informatizado, sem emissão de título em papel, e a organização de acesso a jazigos passa por fila por cemitério, com publicação no site da Prefeitura. A convocação de interessados deverá seguir a ordem cronológica, conforme ocorram reversões de lotes ao Município.

Editais e chamamentos para regularizar permissões e organizar a fila

Outro eixo de implementação é a regularização das permissões existentes. O projeto prevê que a SMMA publique edital para que titulares — ou familiares, até o 4º grau — manifestem interesse em manter a permissão, mediante requerimento com identificação do lote e do cemitério. Se o titular tiver falecido, o texto estabelece procedimentos para indicação de novo titular entre os familiares, com critérios de desempate.

Caso não haja manifestação no edital, a SMMA poderá publicar relação de lotes para que interessados com parente sepultado solicitem a titularidade; persistindo a ausência de interessados, o lote retorna ao Município e passa a ser ofertado aos inscritos na lista de espera. A proposta também veda a inscrição simultânea em mais de uma fila e, como regra, impede que a mesma pessoa obtenha mais de uma permissão, com exceção para permissões anteriores à futura lei.

Transferências vedadas e reversão por inadimplência ou abandono

O texto disciplina o uso por terceiros e busca coibir a “mercantilização” de jazigos. Empréstimos de gaveta a pessoa não pertencente à família são admitidos apenas de forma restrita, por pessoa determinada e por até três anos. Ao mesmo tempo, ficam vedadas transferências, permutas e autorizações genéricas (gratuitas ou onerosas), com previsão de reversão do jazigo ao Município se essas situações forem constatadas.

A proposta prevê, ainda, que a permissão poderá ser onerosa e que haverá taxa anual de manutenção e limpeza — a ser regulamentada por lei complementar. A inadimplência por três anos, consecutivos ou não, é tratada como hipótese de reversão do jazigo ao Município. Para casos de abandono e avarias, o procedimento inclui vistoria, registro fotográfico e notificação; não sendo adotadas providências em 30 dias, o jazigo reverte automaticamente ao Município, sem indenização.

Regras para carentes, não identificados e exumações

O projeto fixa parâmetros para sepultamentos gratuitos de pessoas carentes e para corpos não identificados ou não reclamados, com permanência em gavetas provisórias por três anos e possibilidade de destinação posterior ao ossuário ou incineração, conforme regulamento. A proposição também apresenta critérios de carência vinculados a renda e comprovação por bases e programas sociais.

Quanto a exumações, a regra geral indicada é a possibilidade apenas após três anos do sepultamento — ou dois anos, no caso de falecidos entre 0 e 6 anos — salvo decisão judicial. Em situações de reversão em que existam restos mortais, o texto prevê translado ao ossuário municipal ou incineração conforme regulamento, com menção expressa ao respeito à dignidade e à memória das famílias.

Regulamentação em até 180 dias e penalidades administrativas

Para viabilizar a aplicação das regras, o projeto autoriza que o Executivo discipline casos omissos e normas complementares por regulamento, a ser editado em até 180 dias, mantendo-se aplicáveis, no que couber, os regulamentos vigentes até a edição dos novos atos. Esse detalhamento é parte central do mecanismo de consecução, pois define o prazo para consolidação de procedimentos operacionais e de fiscalização.

O projeto também prevê sanções administrativas a serem aplicadas pela SMMA, com garantias de contraditório e ampla defesa, incluindo advertência, multa, suspensão, embargo, demolição e cassação da permissão, entre outras medidas.

Clique na imagem abaixo para entender como funciona a tramitação de um projeto de lei na CMC.

*Notícia revisada pelo estudante de Letras Gabriel Kummer
Supervisão do estágio: Ricardo Marques