Câmara aprova mudança na Lei da Ficha Limpa de Curitiba

por José Lázaro Jr. | Revisão: Gabriel Kummer* — publicado 07/04/2026 17h10, última modificação 07/04/2026 17h20
Projeto aprovado em 1º turno amplia as restrições para nomeação em cargos comissionados no serviço público de Curitiba.
Câmara aprova mudança na Lei da Ficha Limpa de Curitiba

Projeto do vereador Olimpio Araujo Junior foi debatido por duas horas em plenário. (Fotos: Rodrigo Fonseca/CMC)

A Câmara Municipal de Curitiba (CMC) aprovou, em primeiro turno, na sessão desta terça-feira (7), um projeto de lei complementar que altera a Lei da Ficha Limpa Municipal para ampliar as restrições à nomeação em cargos em comissão no serviço público da capital. De iniciativa de Olimpio Araujo Junior (PL), o substitutivo geral recebeu 22 votos favoráveis e 7 contrários, após duas horas de discussão na sessão desta terça-feira (7).

Com a redação aprovada, passam a integrar o rol de impedimentos previstos na lei complementar 86/2012 as condenações por invasão de domicílio, invasão de terras públicas e esbulho possessório (002.00015.2025 com 031.00301.2025). Na justificativa da matéria, Olimpio Araujo Junior afirma que o objetivo é estabelecer consequência administrativa para esse tipo de conduta e proteger o patrimônio público e privado, “promovendo a segurança e o respeito à propriedade”.

A proibição de contratação abrange a administração direta e indireta dos poderes Executivo e Legislativo de Curitiba. Para efetivar as vedações, o substitutivo acrescenta uma nova alínea ao inciso II do artigo 1º da Lei da Ficha Limpa. A versão do texto validada pelo plenário prevê a entrada em vigor 30 dias após a publicação da norma. Antes de ir à sanção do Executivo, a proposta precisa ser ratificada em segundo turno pelo plenário nesta quarta-feira (8).

“Respeito ao cidadão”, afirmou o autor do projeto

Ao defender a proposta em plenário, Olimpio Araujo Junior afirmou que a medida trata de “moralidade administrativa e de respeito ao cidadão”. Segundo ele, cargos comissionados exigem confiança pública, o que, em sua avaliação, é incompatível com condenações por condutas que afrontem a propriedade e a ordem jurídica. O vereador também argumentou que a legislação já prevê impedimentos para outros crimes e que o projeto busca “fechar uma lacuna” na Lei da Ficha Limpa de Curitiba.

Na justificativa do substitutivo, o parlamentar sustenta que a invasão de domicílio viola a inviolabilidade do lar, assegurada pela Constituição Federal; que a invasão de terras públicas compromete o uso legítimo do patrimônio municipal; e que o esbulho possessório afronta a ordem jurídica ao retirar ilegalmente o possuidor de um imóvel. Para o autor, a alteração é compatível com os princípios da moralidade e da impessoalidade que regem a administração pública.

Durante a discussão, vereadores favoráveis ao projeto afirmaram que a nova hipótese de impedimento não se dirige a situações abstratas de vulnerabilidade social, mas a pessoas condenadas judicialmente. Guilherme Kilter (Novo), João Bettega (PL), Eder Borges (PL), Pier Petruzziello (PP) e Bruno Secco (Novo) defenderam a proposta como uma forma de impedir que condenados por esse tipo de crime assumam cargos de confiança no poder público.

Constitucionalidade foi questionada em plenário

A discussão da proposta foi marcada por questionamentos quanto à constitucionalidade da iniciativa. Vanda de Assis (PT), Camilla Gonda (PSB), Laís Leão (PDT), Professora Angela (PSOL) e Giorgia Prates - Mandata Preta (PT) sustentaram que a proposta interfere em regras de nomeação para cargos comissionados e, por isso, trataria de tema sujeito à iniciativa privativa do chefe do Poder Executivo. Além disso, as vereadoras associaram o projeto a um debate mais amplo sobre moradia, regularização fundiária e vulnerabilidade social em Curitiba.

Vanda de Assis prometeu judicializar a aprovação do projeto e afirmou que ele vai “criminalizar as famílias que não têm moradia”, e Giorgia Prates que a matéria “agrava a exclusão” e “reforça a criminalização da pobreza”. Laís Leão sustentou que a iniciativa “é amplamente inconstitucional” e afeta “moradores periféricos resistindo à remoção, porque não foram atendidos pelo Estado no direito constitucional à moradia”. Camilla Gonda discutiu a legalidade da medida, afirmando que a proposta de Olimpio Araujo Junior não se enquadra nos precedentes do Supremo Tribunal Federal citados por quem defendeu a mudança na Lei da Ficha Limpa.

Professor Euler (MDB) apresentou uma posição intermediária. Em sua fala, disse não ver impedimento em discutir restrições para condenados no acesso a cargos comissionados, mas avaliou que esse tipo de alteração deveria partir do Executivo. Para ele, ainda que o mérito pudesse ser debatido, a forma escolhida pelo projeto geraria vício de iniciativa. O vereador chegou a indicar que a solução tecnicamente correta seria a retirada do projeto e a conversão dele em sugestão à Prefeitura de Curitiba, mas a ideia não vingou em plenário.

Sessão teve questão de ordem durante a discussão

O ambiente da sessão também foi tensionado por uma questão de ordem apresentada por Guilherme Kilter. O vereador questionou a vestimenta usada pela Professora Angela em plenário, no caso uma camiseta com os dizeres “Lute como uma garota”. A presidência, na hora exercida por Nori Seto (PP), acolheu a questão e pediu a adequação da roupa, o que provocou reações de vereadoras que classificaram o episódio como constrangimento e desvio do foco principal do debate.

Ao retomar os trabalhos, Seto registrou que a decisão não decorreu de avaliação pessoal da presidência, mas da aplicação do Ato da Mesa 5/2025, que veda o uso de vestimentas com símbolo, estampa ou imagem que caracterize propaganda político-partidária, ideológica ou promocional, ressalvadas situações específicas de uso da tribuna. Ele agradeceu a disposição da Professora Angela em cumprir o Ato da Mesa. “Eu fico bastante impressionada com a capacidade de alguns vereadores de se incomodarem mais com esse tipo de coisa do que com o que está sendo discutido aqui no dia de hoje, que é extremamente importante”, disse Professora Angela após o ocorrido.

*Notícia revisada pelo estudante de Letras Gabriel Kummer
Supervisão do estágio: Ricardo Marques