Ataque à Tenda de Umbanda Nosso Lar repercute na Câmara de Curitiba
Vereadora Giorgia Prates pediu a criação de uma Procuradoria Racial na Câmara de Curitiba. (Fotos: Rodrigo Fonseca/CMC)
Na sessão desta segunda-feira (27), Giorgia Prates - Mandata Preta (PT) e Pier Petruzziello (PP) manifestaram solidariedade à Tenda de Umbanda Nosso Lar, no Bairro Alto, em razão da comunidade religiosa ter sido atacada no dia 12 de abril. Um líquido com características de ácido foi arremessado contra o terreiro, resultando na hospitalização de dez pessoas. Os vereadores da Câmara Municipal de Curitiba (CMC) afirmaram se tratar de um caso de intolerância religiosa dentro da capital do Paraná.
Giorgia Prates classificou o episódio como parte de um histórico de violência contra religiões de matriz africana e afirmou que o caso não pode ser tratado como conflito isolado. Segundo a vereadora, os frequentadores “não estavam em confronto, não estavam em nenhuma briga” e aguardavam o momento do jantar quando foram atingidos. “Nós estamos obviamente falando aqui de uma violência histórica dirigida contra as religiões de matriz africana, indígena, contra os nossos símbolos, contra os nossos corpos, contra os nossos ritos, em espaços sagrados das nossas comunidades”, disse.
“Isso se chama racismo religioso”, afirmou Giorgia Prates, ao defender que a agressão seja nomeada como ataque à liberdade religiosa e à existência dos povos de terreiro. Na tribuna, a vereadora disse que as agressões contra terreiros seguem um padrão de perseguição, com ameaças de fechamento, questionamentos sobre ritos e tentativas de retirar instrumentos litúrgicos usados nas cerimônias. “Quando isso acontece com os terreiros, não é nenhum episódio isolado. É repetição, é padrão violento, é perseguição”, declarou.
Giorgia Prates apresentou dados nacionais sobre intolerância religiosa. Segundo a vereadora, apenas em 2024 foram registradas mais de 2.472 denúncias no Brasil, com Umbanda e Candomblé entre os grupos mais atingidos. “Quando a gente vê as pessoas tratando isso como se não fosse racismo religioso, não é só injusto, é apagamento, é conveniência”, criticou.
Vereadora pede Procuradoria Racial na CMC
Giorgia Prates cobrou a criação de uma Procuradoria Racial na Câmara de Curitiba. Segundo ela, a população negra já encaminhou ofício à Presidência e à Mesa Executiva da Casa, e a própria vereadora solicitou mais de uma vez que o tema fosse incluído na pauta das reuniões. “Quando o problema não atinge certos corpos, o tempo desacelera, a prioridade some, a pauta não anda”, afirmou.
Para Giorgia, a estrutura teria a função de atuar não apenas em defesa da população negra e dos povos de terreiro, mas no enfrentamento institucional ao racismo. “Quando o assunto é enfrentar o racismo de forma estruturada, tudo bate no excesso, no exagero do outro lado. Mas o povo que sangra sabe da necessidade e do tempo urgente”, completou. A CMC já possui uma estrutura semelhante à proposta, que é a Procuradoria da Mulher.
Pier Petruzziello diz que pauta é humanitária
Somando-se à fala de Giorgia Prates, o vereador Pier Petruzziello afirmou que a defesa das vítimas da intolerância religiosa ultrapassa divergências partidárias e não deve ser enquadrado como pauta de esquerda ou de direita. “Esse é um discurso humanitário. Nós não podemos aceitar [esse tipo de violência] na nossa cidade. Os terreiros de matriz africana são os que mais sofrem preconceito no Brasil, segundo as estatísticas”, disse.
O vereador também classificou a agressão como grave e defende a responsabilização dos agressores. “Quando alguém joga praticamente um coquetel Molotov dentro de um terreiro, teve, sem dúvida nenhuma, a intenção de matar”, afirmou. “Se não gosta da Umbanda, nada lhe dá o direito de atacá-la. Assim como, se você não gosta de uma outra religião ou se você não acredita, nada lhe dá o direito de atacá-la”, completou.
Ao encerrar a manifestação, Giorgia Prates agradeceu o apoio e reforçou que seguirá cobrando medidas em defesa da liberdade religiosa. “O racismo religioso existe, ele machuca e ele mata. E, nessa cidade, pelo menos enquanto eu estiver aqui, ele não vai ser tratado como um simples detalhe”, afirmou.
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