Curitiba tem mais inscritos no SUS do que habitantes, diz secretária
Secretária de Saúde, Tatiane Filipak apresentou dados do SUS em Curitiba no ano passado aos vereadores. (Foto: Rodrigo Fonseca/CMC)
Curitiba tem 1.829.225 habitantes, mas soma 2.195.180 cadastros definitivos no SUS, incluindo 77.961 novos cadastros realizados em 2025. Os dados foram apresentados pela secretária municipal da Saúde, Tatiane Filipak, em audiência pública de prestação de contas na Câmara Municipal de Curitiba (CMC). Segundo ela, “o cadastro não condiz com o número da população”, porque o sistema atende também pessoas que vêm de fora, de cidades e estados brasileiros, ou de outros países, e passam a utilizar a rede da capital.
No recorte apresentado, a secretária informou 65.959 migrantes cadastrados no SUS de Curitiba, dos quais 14% se cadastraram em 2025. Ela frisou a necessidade de adaptação da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) a essa realidade, com cursos de língua estrangeira aos servidores, e do desafio que é demonstrar aos estrangeiros que eles podem buscar atendimento nas Unidades de Saúde, especialmente para acompanhamento do Pré-Natal.
A audiência na CMC foi coordenada pelo presidente da Comissão de Saúde e Bem-Estar Social, Sidnei Toaldo (PRD). A prestação de contas do SUS é exigida pela lei federal complementar 141/2012. A norma exige que o relatório quadrimestral seja apresentado pelo gestor do SUS de cada Município, dos Estados, do Distrito Federal e da União à respectiva Casa Legislativa, até o fim dos meses de fevereiro, maio e setembro. A prestação de contas foi transmitida ao vivo pelo canal da CMC no YouTube.
Rede do SUS: capilaridade e volume de atendimentos
A secretária Tatiane Filipak descreveu a estrutura do SUS municipal com 109 Unidades de Saúde, 9 UPAs, 13 CAPS, 2 hospitais municipais e 15 credenciados, além de telessaúde, regulação e vigilância, somando 321 equipamentos. Ao comentar a escala de atendimento, afirmou que “mais do que números, para nós, são pessoas que nós atendemos”, ao justificar o esforço para manter serviços de rotina e, ao mesmo tempo, reorganizar fluxos diante do aumento de demanda.
No ano de 2025, a Prefeitura de Curitiba registrou 2,13 milhões de consultas médicas na Atenção Primária de Saúde e 1,4 milhão na Urgência e Emergência, 1,37 milhão de atendimentos odontológicos, 394 mil consultas especializadas e 477 mil exames, por exemplo, dentro do conjunto de dados expostos aos vereadores. A apresentação da SMS destacou o zeramento das filas para oftalmologia em adultos e tomografia de crânio, tórax e pescoço.
Trauma lidera internações; cardiovasculares lideram óbitos
“São várias causas disputando o mesmo leito”, afirmou Tatiane Filipak ao explicar a pressão sobre a rede hospitalar. Nos dados apresentados, as causas externas (trauma) foram o principal motivo de internações, com 17.572 registros no período analisado, à frente das doenças cardiovasculares, que somaram 15.391 internações e apareceram como a segunda maior causa, após terem subido de 14.870 (2024) para 15.391 (2025).
A secretária relacionou esse quadro a dois vetores diferentes de pressão. De um lado, “aumento do trauma, que é a maior causa de internamento”, com acidentes e outras ocorrências agudas que “ocupam” leitos de maneira imediata. De outro, o peso das condições crônicas: embora as causas externas tenham motivado 1.144 óbitos, as doenças cardiovasculares foram a principal causa de mortes em Curitiba, com 3.251 óbitos em 2025, reforçando o desafio permanente de prevenção e acompanhamento.
Na síntese apresentada, a disputa por leitos decorre justamente dessa sobreposição: o trauma “chega de uma vez”, enquanto as doenças cardiovasculares “se acumulam” ao longo do tempo, exigindo assistência contínua. Por isso, a secretária defendeu que a resposta do SUS precisa combinar organização do fluxo hospitalar com fortalecimento da atenção básica e de medidas preventivas, para reduzir tanto a sobrecarga das internações quanto a mortalidade.
Dengue recua 91% em Curitiba e zera óbitos em 2025, diz secretária
Ao comentar a queda da dengue, Tatiane Filipak comparou Curitiba com o desempenho nacional e estadual: “o Brasil reduziu a dengue, o Estado reduziu a dengue, mas Curitiba reduziu mais”. Pelos dados apresentados, a capital registrou redução de 91%, com os casos caindo de 17.762 (2024) para 1.575 (2025). No mesmo intervalo, as hospitalizações passaram de 865 para 84, e os óbitos foram de 8 para 0.
A secretária atribuiu o resultado à combinação de monitoramento e resposta rápida em campo. Segundo ela, com ferramentas de acompanhamento “em tempo real”, “o distrito sabe onde está o foco da dengue” e, a partir daí, “já é feita uma ação pra fazer o controle do foco”. Filipak também citou tecnologias para reduzir criadouros e dispersão do vetor e resumiu a lógica da estratégia com uma imagem direta. Na fala, Tatiane ainda mencionou novas frentes de inovação em parceria com instituições de pesquisa, como o desenvolvimento do mosquito com a bactéria Wolbachia, e celebrou o desfecho do período: “Zero óbito, isso é maravilhoso”.
Vigilância em saúde: suspeitas de metanol foram descartadas
Na parte dedicada a eventos sanitários e vigilância, Filipak relembrou um episódio tratado como alerta no ano anterior e afirmou que a rede chegou a monitorar 5 casos suspeitos de intoxicação por metanol em Curitiba. Segundo ela, a investigação não confirmou a ocorrência. “Nenhum foi confirmado” e “todos os casos foram descartados”, declarou, ao explicar que eventos sentinela mobilizam rapidamente equipes de vigilância e ações de campo.
Pesquisa registra 86,13% de aprovação e desconfiança abaixo de 3%
Tatiane Filipak afirmou que a Secretaria Municipal da Saúde encomendou uma pesquisa externa de satisfação, aplicada nas 109 Unidades de Saúde, com entrevistadores abordando usuários dentro das unidades. Ao apresentar os resultados, ela destacou que “chegou a 86,13% de aprovação geral” e que a “nota técnica geral ficou em 8”, citando Pinheirinho (8,4) como o distrito com melhor avaliação.
A secretária também chamou atenção para o indicador de confiança no sistema. Segundo ela, o pesquisador relatou que “não encontrou em nenhum outro lugar um índice de desconfiança tão baixo” e que “menos de 3% declaram não confiar no Sistema Municipal de Saúde”. Na mesma apresentação, ela informou que 50,2% apontaram percepção de melhora “no último ano”. Entre as dificuldades mais citadas pelos entrevistados, a pesquisa registrou acesso a especialistas (18,66%), demora no agendamento (18,18%), falta de profissionais (11,78%) e dificuldade para obter medicamentos (9%).
Reprodução do texto autorizada mediante citação da Câmara Municipal de Curitiba