Com 33 Armazéns, Curitiba aposta em comida barata contra a fome

por José Lázaro Jr. | Revisão: Ricardo Marques — publicado 03/06/2026 11h45, última modificação 03/06/2026 12h06
Tribuna Livre recebeu o secretário Leverci Silveira Filho, que apresentou números dos Armazéns da Família, restaurantes populares e Mesa Solidária
Com 33 Armazéns, Curitiba aposta em comida barata contra a fome

A Tribuna Livre com Leverci Filho foi transmitida ao vivo pelo canal da CMC no YouTube. (Foto: Rodrigo Fonseca/CMC)

O acesso da população a alimentos de qualidade, com preços mais baixos e políticas públicas voltadas a famílias em situação de vulnerabilidade, foi o tema da Tribuna Livre da Câmara Municipal de Curitiba (CMC) nesta quarta-feira (3). A convite da vereadora Meri Martins (Republicanos), o secretário municipal de Segurança Alimentar e Nutricional, Leverci Silveira Filho, apresentou os principais programas da pasta e afirmou que Curitiba estruturou uma rede pública voltada ao combate à insegurança alimentar (076.00009.2026).

“Curitiba é uma grande referência. E podem ter certeza que, se Curitiba recebeu títulos de cidade mais inteligente do mundo e tantos outros títulos que elevam a nossa capital, as políticas de segurança alimentar e nutricional foram grandes indicadores de pontuação”, afirmou Leverci. O secretário contextualizou que a pasta nasceu há 40 anos com foco no abastecimento, mas passou a atuar em uma agenda mais ampla depois da consolidação da política nacional de segurança alimentar e nutricional.

Segundo a apresentação da SMSAN, Curitiba conta hoje com 33 Armazéns da Família, 12 Sacolões da Família, 76 feiras livres, 231 hortas urbanas, 6 restaurantes populares, 4 Mesas Solidárias, 6 escolas de gastronomia social, 3 fazendas urbanas, Banco de Alimentos, Câmbio Verde e o Projeto Base. A rede foi organizada pelo secretário em três eixos: Cidade do Acesso, Cidade que Produz e Cidade do Consumo Consciente.

Armazéns da Família ampliam vendas em 30%

A principal ênfase da apresentação foi o acesso à alimentação por meio dos Armazéns da Família, programa que atende famílias cadastradas com produtos de alimentação, higiene e limpeza a preços mais baixos. De acordo com Leverci, a gestão conseguiu recuperar a capacidade de venda dos equipamentos. “Nós estamos, desde que assumimos, melhorando em venda 30% as nossas vendas no Armazém da Família. Não é pouca coisa. 30% representam um avanço com base em 48 diferentes ações, só para o Armazém da Família”, disse.

O secretário afirmou que os Armazéns e Sacolões ajudam Curitiba a manter uma cesta básica mais acessível. “A gente visa, através principalmente do Armazém da Família e do Sacolão, manter essa política pública que faz com que Curitiba tenha a cesta básica mais barata do Brasil”, declarou. Segundo ele, a cesta básica média do mercado convencional fica “50% mais cara” do que a encontrada nos equipamentos municipais, enquanto os programas da Prefeitura operam com valores inferiores até mesmo à cesta mais barata medida em outras capitais.

Nos slides apresentados à Câmara, a SMSAN informou que os Armazéns da Família têm mais de 360 mil famílias cadastradas, beneficiam cerca de 1 milhão de curitibanos e mais 100 mil pessoas da Região Metropolitana, com 15 municípios conveniados. A rede trabalha com centenas de produtos e, segundo a secretaria, 86% das famílias atendidas têm renda de até dois salários mínimos.

Leverci explicou que o programa não tem o objetivo de concorrer com redes privadas de supermercados, mas de garantir acesso a alimentos e produtos essenciais para quem mais precisa. “Nossa ideia não é abrir um mercado que vá concorrer com o Muffato, ou com outra rede qualquer. Nossa ideia é trabalhar o acesso das pessoas que mais precisam a esses alimentos”, afirmou.

O secretário também citou o serviço Clique Economia, ferramenta gratuita de comparação de preços. Segundo os slides da SMSAN, a pesquisa monitora diariamente mais de 650 itens em supermercados de médio e grande porte, com atualização no site às 12h e às 16h. Para Leverci, a ferramenta amplia a transparência e ajuda as famílias a planejarem melhor seus gastos com alimentação e produtos de primeira necessidade.

Restaurantes populares servem refeições a R$ 3,00

Outro destaque da Tribuna Livre foram os restaurantes populares de Curitiba, que oferecem refeições balanceadas a preço subsidiado. Leverci afirmou que a rede serve entre 5,5 mil e 6 mil refeições por dia, ao custo de R$ 3,00 para o usuário. “Quanto que a Prefeitura subsidia? Em torno de R$ 8,80 por refeição. Então a gente tem um investimento diário de cerca de R$ 40 mil para fazer com que as pessoas tenham acesso a alimento saudável”, explicou.

A apresentação da SMSAN registra seis unidades em funcionamento: Matriz, Sítio Cercado, CIC/Fazendinha, Pinheirinho, Capanema e Tatuquara. O secretário também informou que está prevista a implantação de uma sétima unidade no Boqueirão. Segundo os slides, os restaurantes populares têm capacidade de atendimento superior a 1 milhão de refeições por ano.

Leverci disse ainda que unidades de saúde têm recomendado os restaurantes populares, especialmente para pessoas idosas, como forma de garantir alimentação adequada. A fala foi reforçada pela vereadora Camila Gonda (PSB), que defendeu a alimentação como direito básico. “Toda vez que a gente discute sobre hortas comunitárias, armazéns da família, sacolões, restaurantes populares, a gente está falando sobre alimentar a população”, afirmou.

Mesa Solidária, Projeto Base e Banco de Alimentos

A política de acesso à alimentação também foi apresentada a partir do Mesa Solidária, do Projeto Base e do Banco de Alimentos. Leverci afirmou que o Mesa Solidária está chegando a 2 milhões de refeições servidas e destacou que a preparação e o atendimento são realizados por entidades voluntárias do terceiro setor. “Cerca de 68 entidades hoje atuam diariamente produzindo alimento e servindo para as pessoas, muitas delas amparadas pelo Banco de Alimentos”, explicou.

Nos slides, a SMSAN informa que o Projeto Base – Bem-Estar, Apoio, Solidariedade e Emprego foi inaugurado em 8 de abril e, até o momento da apresentação, havia servido 20.322 refeições, mobilizado 432 voluntários, reunido 25 entidades participantes e resultado em 14 contratações efetivadas. O equipamento é apresentado pela Prefeitura como uma iniciativa de governança colaborativa, integrando segurança alimentar, assistência social, saúde, qualificação profissional, inclusão produtiva, desenvolvimento humano e meio ambiente.

A vereadora Indiara Barbosa (Novo) perguntou sobre a relação do Base com moradores e comerciantes do entorno. Leverci respondeu que o equipamento representa uma versão aprimorada do Mesa Solidária, por oferecer um espaço interno e mais apropriado para o atendimento. “A ideia é não deixar acumular numa rua que acaba numa bifurcação em T, que não tem uma praça, que não tem o acúmulo de pessoas ali dentro”, disse. O secretário afirmou que a região deve receber melhorias de infraestrutura, segurança e presença da Guarda Municipal.

O Banco de Alimentos também foi citado como ferramenta de combate à fome e de redução do desperdício. Segundo os slides, o programa arrecadou 259.730 quilos de alimentos em 2025 e conta com 135 entidades cadastradas. Leverci afirmou que a Prefeitura trabalha para ampliar a participação de grandes eventos na arrecadação de alimentos, fortalecendo a rede de atendimento social.

Sacolões, feiras e agricultura familiar

Além dos Armazéns da Família, Leverci destacou os Sacolões da Família, que oferecem hortifrutigranjeiros a preço único. Segundo ele, os equipamentos funcionam com pauta sazonal e preço de R$ 3,99. “Estamos colocando sacolão móvel a R$ 3,99. É uma das medidas que a gente está trabalhando, essa política pública mais dinâmica para chegar nas comunidades”, disse, ao responder questionamento de Laís Leão (PDT) sobre crise climática e risco de aumento nos preços dos alimentos.

A vereadora relacionou a segurança alimentar aos efeitos do El Niño e da crise climática. Leverci afirmou que a secretaria integra comissão especial de enfrentamento ao fenômeno climático e que Curitiba precisa fortalecer políticas de resiliência. Ele explicou que a cidade deve combater os chamados “desertos alimentares”, quando uma região não tem acesso a equipamentos de abastecimento; “pântanos alimentares”, quando há oferta predominante de ultraprocessados; e “miragens alimentares”, quando há alimentos saudáveis, mas sem preço acessível.

O vereador Leônidas Dias (Pode) defendeu a valorização das feiras livres, especialmente a Feira da Barreirinha, que funciona aos domingos. O secretário respondeu que a feira é uma prioridade da pasta e que levar equipamentos de abastecimento aos bairros é uma forma de combater desertos alimentares. Segundo os slides, Curitiba tem 76 feiras livres, 378 feirantes e 14 feiras orgânicas.

A integração com a Região Metropolitana foi tema de perguntas de Jasson Goulart (Republicanos) e Rafaela Lupion (PSD). Leverci explicou que Curitiba não possui área rural suficiente para produção comercial extensiva e depende do cinturão produtivo metropolitano. Segundo ele, programas como o Prodam e o Pró-Metrópole ajudam a organizar cadeias produtivas, enquanto a entrada de Curitiba no Consórcio Metropolitano de Serviços do Paraná (Comesp) reforça o compromisso da capital com os municípios produtores.

Hortas urbanas ampliam acesso a alimentos saudáveis

Embora o foco da apresentação tenha sido o acesso à alimentação, o secretário também tratou da produção urbana de alimentos. Segundo os slides, Curitiba possui 231 hortas urbanas implantadas, entre comunitárias, escolares e institucionais, além de 3 fazendas urbanas. Leverci afirmou que as hortas ajudam a ocupar áreas ociosas, reduzir descarte irregular de lixo e ampliar o acesso a alimentos saudáveis.

O vereador Marcos Vieira (PDT) perguntou como os moradores podem transformar pequenos espaços públicos em hortas comunitárias. O secretário explicou que há credenciamento aberto para novas hortas, mas afirmou que o fomento inicial exige avaliação e apoio técnico. “A gente precisa fornecer primeiramente os insumos: cercamento, insumo, qualificação, todo o aparato necessário para impulsionar e criar a horta”, disse. Segundo ele, as fazendas urbanas funcionam como equipamentos pedagógicos, oferecendo cursos sobre canteiros, poda, compostagem e manejo.

Lórens Nogueira (PP) agradeceu o trabalho da secretaria na Horta Comunitária do Xaxim e perguntou sobre o retorno do Armazém da Família da Vila São Pedro. Leverci disse que a secretaria mantém estudo permanente sobre fluxo, localização e necessidade de reforma dos armazéns. “Dos 33, acho que três não precisam de reforma. Então estamos numa luta inglória para poder manter em pé os Armazéns da Família com condições adequadas de atendimento”, afirmou.

O secretário também respondeu a Nori Seto (PP) sobre o Armazém da Família do São Braz. Segundo Leverci, algumas unidades precisam ser reorganizadas ou relocalizadas para melhorar o atendimento. Ele afirmou que a experiência de Santa Felicidade foi considerada exitosa porque o equipamento foi transferido para um local integrado ao terminal e passou a vender mais.

Merenda, educação alimentar e ultraprocessados

A articulação entre segurança alimentar e educação foi abordada por Camila Gonda (PSB), Vanda de Assis (PT) e Angelo Vanhoni (PT). Camila perguntou como a secretaria atua em relação às crianças em situação de vulnerabilidade fora do período escolar e durante o recesso. Leverci explicou que a merenda é executada pela Secretaria Municipal da Educação, mas que a SMSAN contribui na articulação com a agricultura familiar e nas discussões da Câmara Intersetorial de Segurança Alimentar e Nutricional (Caisan).

Segundo o secretário, há uma meta de ampliar a presença de orgânicos na alimentação escolar até 2030. “Acho bem difícil para todo o Estado, mas é uma meta. E a gente tem trabalhado para ajudar na merenda escolar, no sentido de fazer com que as cooperativas forneçam os alimentos”, disse. Ele também mencionou a criação do Núcleo de Educação Alimentar e Nutricional Sustentável, voltado a trabalhar a sustentabilidade dos sistemas agroalimentares nas escolas.

Vanda de Assis questionou a fiscalização da qualidade dos alimentos entregues às escolas e a presença de ultraprocessados nos Armazéns da Família. Leverci reconheceu a preocupação e afirmou que o tema pode ser debatido na Caisan. “É claro que a gente tem o cuidado para não vender refrigerante, nós não vendemos refrigerante, não vendemos bebida alcoólica, mas um ou outro item, um biscoito, uma bolacha, não tem como a gente não ofertar, por uma questão até de dignidade de acesso a essas pessoas”, declarou.

Angelo Vanhoni perguntou se reclamações sobre a merenda devem ser encaminhadas à Educação ou à SMSAN. Leverci respondeu que a gestão da merenda é da Educação, mas que a secretaria pode provocar e qualificar o debate dentro da Caisan. “É nosso papel, é claro, provocar a Educação, mas trazer essa discussão para dentro da Caisan”, afirmou.

Cursos e gastronomia também foram citados

Na parte final da Tribuna Livre, Meri Martins destacou os cursos gratuitos ofertados pela secretaria. Leverci informou que Curitiba conta com sete espaços de escolas de gastronomia, em parceria com instituições como o Senac, voltados à qualificação profissional e ao empreendedorismo. “São sete espaços espalhados na cidade que oferecem cursos gratuitos às pessoas para que elas possam, em diferentes modalidades, explorar a questão do alimento com empreendedorismo”, explicou.

A vereadora Camila Gonda (PSB) também perguntou sobre a Feira de Gastronomia Latino-Americana, construída em diálogo com migrantes. Leverci afirmou que a secretaria está trabalhando na capacitação dos futuros feirantes para que possam atender aos requisitos de qualidade e profissionalização. “Com certeza, eles se profissionalizando e atendendo os requisitos básicos, vai ser um sucesso e eles vão prosperar também”, disse.

Sidnei Toaldo (Avante) destacou a parceria da secretaria com a Associação do Comércio e Indústria de Santa Felicidade para a realização do primeiro festival gastronômico da região, previsto de 4 de julho a 8 de agosto. Segundo Leverci, a iniciativa deve envolver restaurantes, clubes, paróquia e entidades locais, reforçando a identidade gastronômica de Santa Felicidade.

Serginho do Posto (PSD) elogiou a atuação da secretaria e a relação de diálogo com a Câmara. “A gente vê ações positivas, que os resultados são o melhor atendimento à população. Esse é o objetivo do serviço público”, afirmou. Leverci agradeceu o apoio dos vereadores e disse que novas pautas legislativas da SMSAN devem passar pela Casa. “Essa Câmara tem sido muito importante para que a gente avance nessas políticas públicas”, concluiu.