Fim da escala 6x1: entidades e vereadores anunciam mobilização em Curitiba

por José Lázaro Jr. | Revisão: Gabriel Kummer* — publicado 08/04/2026 13h25, última modificação 08/04/2026 14h22
Audiência realizada na noite de 6 de abril, na Câmara de Curitiba, reuniu sindicatos, estudantes, juristas e movimentos sociais.
Fim da escala 6x1: entidades e vereadores anunciam mobilização em Curitiba

A Audiência Pública sobre o fim da escala 6x1 foi transmitida ao vivo pelo YouTube. (Fotos: Carlos Costa/CMC)

A Audiência Pública sobre o fim da escala 6x1, realizada na noite de 6 de abril, no auditório da Câmara Municipal de Curitiba (CMC), terminou com o anúncio de medidas para dar sequência ao debate na capital. Entre os encaminhamentos citados no encontro, estão a coleta de assinaturas para uma moção pela mudança no regime e a elaboração de um relatório com denúncias trabalhistas a ser encaminhado ao Ministério Público do Trabalho (MPT).

Proposto por Giorgia Prates - Mandata Preta (PT), Marcos Vieira (PDT), Laís Leão (PDT), Vanda de Assis (PT), Professora Angela (PSOL), Camilla Gonda (PSB) e Angelo Vanhoni (PT), o encontro reuniu representantes sindicais, juristas, estudantes e integrantes de movimentos sociais para discutir os efeitos da jornada sobre a saúde, a qualidade de vida e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal (407.00004.2026). No evento, os parlamentares citaram a articulação de uma frente parlamentar sobre o tema na Câmara de Curitiba.

Falas relacionaram jornada à saúde, ao descanso e à convivência

Na abertura, Giorgia Prates afirmou que a audiência tratava de condições de vida, e não apenas da organização da jornada. “Nós não estamos falando apenas da jornada de trabalho, nós estamos falando de vida”, declarou. Em seguida, mencionou adoecimento mental, estresse crônico, ansiedade, burnout, acidentes de trabalho e desigualdades entre os efeitos associados à escala 6x1, com referência às mulheres que acumulam trabalho remunerado e cuidado doméstico.

Entre os parlamentares presentes, Camilla Gonda associou o tema ao direito, ao lazer e ao direito à cidade. Ao citar dados do Ministério do Trabalho e Emprego, afirmou que a escala alcança 33,2% dos empregos no país e cerca de 20 milhões de pessoas com jornadas de 44 horas ou mais por semana. Laís Leão tratou da relação entre descanso e uso dos espaços públicos, mencionando parques, praças e convivência familiar. Vanda de Assis afirmou que a tramitação do tema no Congresso dependerá de pressão popular.

Professora Angela disse que o fim da escala 6x1 se tornou uma pauta “do nosso tempo” e relatou falas de alunos sobre sono, estudo e tempo livre. Marcos Vieira afirmou que “trabalho digno é também ter tempo pra viver” e mencionou experiências de empresas com escala 5x2 para rebater a crítica de que a mudança seria incompatível com a atividade econômica.

Entidades e especialistas defendem redução da jornada

Representantes de órgãos públicos, sindicatos e entidades ligadas ao direito do trabalho trataram do fim da escala 6x1 junto da redução da jornada semanal, sem corte salarial. O procurador do Ministério Público do Trabalho no Paraná, Fabrício Oliveira, afirmou que jornada é tema de saúde e relacionou jornadas extensas a adoecimento e acidentes. Ele declarou apoio à redução da jornada e ao fim da escala 6x1 sem redução de salários.

O supervisor técnico do Dieese no Paraná, Sandro Silva, afirmou que o debate não deveria se limitar ao fim da escala 6x1, porque a manutenção das 44 horas semanais poderia concentrar mais carga diária. Ao mencionar a reforma trabalhista, citou a ampliação de instrumentos de flexibilização, como banco de horas e jornada 12x36 por acordo individual. Na mesma linha, Jamil D’Ávila, do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, defendeu a jornada de 40 horas semanais e disse que cerca de 80% da base metalúrgica já trabalha nesse regime.

A professora de Direito do Trabalho, Maíra Fonseca, tratou a duração do trabalho como construção histórica e política. Em sua exposição, disse que os limites legais da jornada não decorrem de uma conta neutra, mas de correlações de força em cada período histórico. Ao abordar tecnologia, automação e hiperconexão, relacionou o debate ao direito à desconexão e à preservação do tempo fora do trabalho.

Pela Associação da Advocacia Trabalhista do Paraná, Mariana Yokohama de Athayde lembrou que a redução da jornada está na origem histórica do direito do trabalho e mencionou a atualização da NR-1 para incluir riscos mentais. Felipe Miranda, da Comissão de Direito do Trabalho da OAB Paraná, citou princípios constitucionais como dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e redução das desigualdades, e defendeu a produção de estudos técnicos sobre impactos econômicos, financeiros e jurídicos da proposta.

Sindicalistas relataram rotina de exaustão em diferentes setores

A presidenta do Sindicato dos Bancários e Financiários de Curitiba e Região, Cristiane Paula Zacarias, afirmou que, embora os bancários já estejam em jornada 5x2, há terceirizados nos bancos submetidos ao regime 6x1. Em sua fala, citou os lucros do sistema bancário e associou o setor a adoecimento mental. “Os três maiores bancos privados lucraram mais de R$ 80 bilhões”, disse.

A presidente do Sintrashopping, Jocelene Mota, relatou situações de trabalhadores de shopping que, segundo ela, chegam a cumprir oito ou nove dias de trabalho até a folga. Mencionou pressão por metas, jornadas que começam pela manhã e terminam à noite, dificuldade de fiscalização e pedidos de afastamento por exaustão. “Eu queria um atestado só pra dormir, que eu não tô aguentando mais”, afirmou, ao reproduzir o relato de empregados do setor.

Pelas centrais sindicais, Márcio Mauro Killers Gonçalves, da CUT Paraná, e Lairson Sena, da UGT Paraná, citaram mobilizações em Brasília e no 1º de Maio e defenderam que a mudança pode reduzir absenteísmo, melhorar a produtividade e ampliar o tempo de convívio familiar.

Estudantes e movimento social relatam trabalho precário

Nos pronunciamentos do público inscrito, estudantes e integrantes de movimentos sociais associaram a escala 6x1 à evasão universitária, ao subemprego e à precarização de estágios. A estudante Atena Souza, do DCE da UTFPR, afirmou que estudantes também compõem a classe trabalhadora e criticou vagas de estágio organizadas nessa lógica. Carol Silva relacionou o tema à inserção da população trans no mercado formal de trabalho e mencionou situações de abuso e vulnerabilidade.

Eloy da Rocha, da luta antimanicomial, falou sobre baixos salários, longos deslocamentos e moradia precária. Mateus Henrique relatou experiência pessoal com a escala 6x1 e a rotina de sua mãe, professora da rede municipal, que trabalhava também aos sábados para complementar a renda. Luan Azevedo citou a realidade de moradores do Tatuquara que passam até 12 horas por dia fora de casa ao somar jornada e deslocamento.

Rafael Pereira associou a precarização do trabalho a recortes de raça, gênero e orientação sexual. Daniel de Abreu, estudante de Engenharia de Software, relatou ter trabalhado em um supermercado na escala 6x1 para se sustentar durante a faculdade. Maria Antônia, do DCE da UFPR, mencionou a evasão de jovens da universidade pública pela falta de tempo para estudo, descanso e permanência acadêmica.

*Notícia revisada pelo estudante de Letras Gabriel Kummer
Supervisão do estágio: Ricardo Marques