{"provider_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br", "title": "Tr\u00eas pr\u00edncipes nos campos de trigo do Abranches", "html": "<div align=\"justify\"><span>Em 1884, dois colonos que ceifavam trigo em um campo no Abranches, avistaram tr\u00eas meninos que, vindo em sua dire\u00e7\u00e3o, pediram-lhes algumas espigas do cereal. Nem imaginavam os camponeses \u2013 e pense na surpresa quando descobriram \u2013 que as tr\u00eas crian\u00e7as eram pr\u00edncipes, netos de Dom Pedro II. A data era 4 de dezembro e os infantes haviam chegado cinco dias antes a Curitiba, acompanhados de seus pais, princesa Isabel e Conde d'Eu, para conhecer a cidade e fazer a primeira viagem oficial da estrada de ferro, vindos de Paranagu\u00e1.</span><br /><br /><span>O campo em que D. Pedro, D. Antonio e D. Lu\u00eds passeavam tratava-se de uma col\u00f4nia de poloneses provenientes da Pr\u00fassia Ocidental. Os colonos estavam ali a pouco tempo (desde 1873), ap\u00f3s terem conseguido autoriza\u00e7\u00e3o do ent\u00e3o presidente da Prov\u00edncia do Paran\u00e1, Frederico Abranches, para se instalarem a \u201cseis quil\u00f4metros\u201d de Curitiba, num espa\u00e7o estabelecido pela C\u00e2mara Municipal. Outros bairros, como Pilarzinho, Santa C\u00e2ndida, Augusta e Orleans, tamb\u00e9m foram povoados por poloneses, tornando a capital, a maior col\u00f4nia destes imigrantes no Brasil. Tudo isso porque o imperador havia adotado uma pol\u00edtica de \u201cportas abertas\u201d aos estrangeiros, para minimizar a falta de m\u00e3o de obra e a escassez de alimentos \u2013 a prop\u00f3sito, o bairro Orleans recebeu este nome em homenagem ao Conde d'Eu, Lu\u00edz Felipe de Orl\u00e9ans.</span><br /><br /><span>Naquela manh\u00e3 de 1884, a fam\u00edlia imperial chegou \u00e0 col\u00f4nia \u00e0s 7h30. \u201cOs colonos aguardavam os augustos visitantes, no adro da igreja que alli ha, em companhia do padre Kuvonski, diretor e parocho na colonia, que \u00e9 composta de mais de 1,500 pessoas, entre homens, mulheres e crian\u00e7as, todos polacos e pertencentes \u00e1 Prussia\u201d, narrou o jornal Gazeta de Not\u00edcias do Rio de Janeiro, que enviou um correspondente especialmente para acompanhar a viagem dos pr\u00edncipes.</span><br /><br /><span>L\u00e1, participaram de uma missa e ouviram m\u00fasicas t\u00edpicas: \u201c\u00e1\u00a0 sahida, os colonos dirigiram um cantico a Suas Altezas, cantando em c\u00f4ro, depois d'isso, o hymno polaco, cantando com eles o Sr. conde d'Eu, que declarou j\u00e1 ter ouvido este hymno na Crac\u00f3via uma vez, e que alli o povo que o ouve e os que o cantam, levantam-se para provar que a Polonia n\u00e3o morreu ainda \u2013 o que tambem acreditam. O Sr. conde d'Eu esteve alguns dias na Polonia, e, como tem grande aptid\u00e3o para as l\u00ednguas, conseguiu aprender aquelle idioma.\u201d, relatou o correspondente \u2013 vinte anos antes, guerras externas travadas pelo ex\u00e9rcito prussiano impulsionaram a imigra\u00e7\u00e3o de alde\u00e3es de Siolkowice, uma pequena aldeia pr\u00f3ximo a Opole, no Sul da Pol\u00f4nia, para as terras brasileiras.</span><br /><br /><span><dl style=\"width:400px;\" class=\"image-left captioned\">\n<dt><a rel=\"lightbox\" href=\"/informacao/noticias/imagens-de-noticias/Santos_Andrade_1886__FO90SN121.jpg\"><img src=\"https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/imagens-de-noticias/Santos_Andrade_1886__FO90SN121.jpg/@@images/b47ea493-d990-40b9-8ff6-285c9dd1baa4.jpeg\" alt=\"Santos Andrade em 1886\" title=\"Santos Andrade em 1886\" height=\"266\" width=\"400\" /></a></dt>\n <dd class=\"image-caption\" style=\"width:400px;\">A pra\u00e7a Santos Andrade em 1886. Mesmo perto da regi\u00e3o central da \u00e9poca, a paisagem ainda era rural. (Foto: Acervo Casa da Mem\u00f3ria)</dd>\n</dl></span></div>\r\n<div align=\"justify\"><span>Chama a aten\u00e7\u00e3o a descri\u00e7\u00e3o que o jornalista carioca faz sobre a apar\u00eancia dos anfitri\u00f5es, quase como se n\u00e3o estivessem no mesmo Brasil. \u201cAs mulheres n'esta colonia usam todas umas toucas, parecidas com as que se p\u00f5e nas crian\u00e7as rec\u00e9m-nascidas, e que lhes d\u00e3o uma apparencia muito comica.\u00a0 Os homens, e mesmo as mulheres, s\u00e3o feios, predominando o cabello preto em umas cabe\u00e7as chatas como a dos nossos patricios do Cear\u00e1. S\u00e3o de boa indole, muito trabalhadores e sorumbaticos. Custa-se a arrancar uma palavra\u00a0 d'estes polacos, que t\u00eam physionomia de quem pensa muito na vida pela certeza da morte.\u201d</span><br /><br /><span>Ele relatou ainda que a col\u00f4nia Abranches era a que ficava mais perto \u201cda cidade de Curityba\u201d, e que ali se cultivava milho, trigo, centeio e batatas. \u201cMuitos outros cereaes aliment\u00edcios, e gado su\u00edno, muar e cavallar; n\u00e3o \u00e9 a colonia mais prospera, mas \u00e9 uma das melhores da provincia. Em caminho para ella avistam-se grandes campos cobertos de planta\u00e7\u00e3o, e todos os lotes de terra bem aproveitados.\u201d Por esta descri\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel perceber qu\u00e3o rural e diferente era a regi\u00e3o norte da cidade da atualidade.</span><br /><br /><span>\u201cEm regresso, os principes D. Pedro, D. Luiz e D. Antonio, avistando em um grande campo dois colonos, que ceifavam trigo, dirigiram-se a elles e pediram algumas espigas d'aquelle cereal, sendo satisfeitos pelos colonos, que n\u00e3o sabiam quem eram aquellas crian\u00e7as, o que s\u00f3 mais tarde conseguiram, ficando por isso lisongeados\u201d, continuou.</span><br /><br /><span>Naquele dia, princesa Isabel escreveria aos pais: \u201cNas col\u00f4nias Abranches, Santa C\u00e2ndida, Pilarzinho e Lamenha, todas polacas e perto de Curitiba, h\u00e1 umas 250 fam\u00edlias. A \u00fanica coisa que os colonos se queixam \u00e9 da exiguidade do lote que destinaram a cada fam\u00edlia, no que, com efeito, pareceu-nos terem eles raz\u00e3o\u201d.</span></div>\r\n<div align=\"justify\"><span></span><dl style=\"width:740px;\" class=\"image-inline captioned\">\n<dt><img src=\"https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/imagens-de-noticias/familia_03.jpg/image\" alt=\"Pr\u00edncipes\" title=\"Pr\u00edncipes\" height=\"1110\" width=\"740\" /></dt>\n <dd class=\"image-caption\" style=\"width:740px;\">Da esquerda para a direita, Conde d'Eu (Gaston), Pedro, Antonio, Isabel e Lu\u00eds, em 1885. (Foto: Alberto Henschel - De Volta a Luz: Fotografias Nunca Vistas do Imperador. Instituto Cultural Banco Santos, 2003)</dd>\n</dl><br /><br /><strong><span>Notas sobre os alem\u00e3es</span></strong><br /><span>Os alem\u00e3es, que tamb\u00e9m tiveram forte influ\u00eancia cultural em Curitiba, da mesma forma foram alvo de observa\u00e7\u00e3o por parte dos visitantes, principalmente do correspondente carioca. \u201cNas colonias, os Srs. Allem\u00e3es chegaram a afina\u00e7\u00e3o de governar e dar leis; e a l\u00edngua que n'elas se ensina, \u00e9 a d'aquella nacionalidade, porque o governo n\u00e3o p\u00f3de com elles, que \u00e1s vezes nem conhecem a auctoridade policial e s\u00f3 prestam obedi\u00eancia ao maioral das colonias, que \u00e9 um rei pequeno.\u201d</span><br /><br /><span>\u201cPor toda parte, em todas as ruas, \u00e1s janellas de todas as casas, parados \u00e1s esquinas, encontram-se indiv\u00edduos de cachimbo na bocca, m\u00e3os nos bolsos e bonet; n\u00e3o \u00e9 preciso perguntar, porque se lhe dirigirem a palavra em portuguez, n\u00e3o respondem: - \u00e9 allem\u00e3o. E ser-se allem\u00e3o em Curityba, ou falar um pouco o idioma, j\u00e1 se \u00e9 alguma cousa.\u201d</span></div>\r\n<div align=\"justify\">\u00a0</div>\r\n<div align=\"justify\"><span><strong>Leia as outras reportagens da s\u00e9rie sobre a visita da princesa a Curitiba:</strong></span></div>\r\n<div align=\"justify\"><span>\u00a0</span></div>\r\n<div align=\"justify\"><span><a href=\"http://www.cmc.pr.gov.br/ass_det.php?not=25122#&amp;panel1-2\">Uma princesa nos trilhos da nossa hist\u00f3ria</a><br /><br /><a href=\"http://www.cmc.pr.gov.br/ass_det.php?not=25153#&amp;panel1-1\">A fam\u00edlia imperial pelas f\u00e1bricas de erva mate de Curitiba</a><br /><br /><a href=\"http://www.cmc.pr.gov.br/ass_det.php?not=25196#&amp;panel1-1\">Princesa Isabel e um retrato dos pr\u00e9dios de Curitiba em 1884</a><br /></span></div>\r\n<div align=\"justify\"><span>\u00a0</span></div>\r\n<div align=\"justify\"><span><a href=\"http://www.cmc.pr.gov.br/ass_det.php?not=25290#&amp;panel1-1\">A despedida da princesa e o caso da ferrovia n\u00e3o terminada</a></span></div>\r\n<div align=\"justify\"><span>\u00a0</span></div>\r\n<div align=\"justify\"><span><strong>Notas:</strong><br />1) As cita\u00e7\u00f5es de atas e not\u00edcias, entre aspas, s\u00e3o reprodu\u00e7\u00f5es fieis dos documentos pesquisados. Por isso, a grafia original n\u00e3o foi modificada.<br /><br />2) As informa\u00e7\u00f5es encontradas sobre o local de hospedagem da fam\u00edlia imperial em Curitiba s\u00e3o contradit\u00f3rias. O boletim do IHGPR informou que teria sido na casa de Antonio Ricardo dos Santos. Mas conforme pesquisa realizada pela Casa da Mem\u00f3ria, no livro \"A\u00e7\u00e3o empresarial do bar\u00e3o do Serro Azul\", p. 54, da prof. Odah Regina Guimar\u00e3es (UFPR), existe a afirma\u00e7\u00e3o de que a Princesa ficou hospedada no palacete do Bar\u00e3o (do Serro Azul \u2013 O Solar do Bar\u00e3o, hoje um espa\u00e7o cultural da prefeitura).<br /><br />3) Ao utilizar ou se basear em textos hist\u00f3ricos do nosso site, por gentileza, cite a fonte.</span><span><br />\u00a0</span></div>\r\n<div align=\"justify\"><span><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:</strong><br />Edi\u00e7\u00e3o 352 da Gazeta de Not\u00edcias do Rio de Janeiro \u2013 quinta-feira, 17 de dezembro de 1884, pg. 2 (<a href=\"http://bndigital.bn.br/hemeroteca-digital/\">leia aqui</a>).<br /><br />Edi\u00e7\u00e3o 355 da Gazeta de Noticias do Rio de Janeiro \u2013 S\u00e1bado, 20 de dezembro de 1884 (<a href=\"http://bndigital.bn.br/hemeroteca-digital/\">leia aqui</a>).<br /><br />Imigra\u00e7\u00e3o polonesa no territ\u00f3rio paranaense: Aspectos culturais e distri\u00e7\u00e3o espacial das col\u00f4nias polonesas no espa\u00e7o geogr\u00e1fico paranaense. Antonio Leocadio Cabral Reis e Marcos Aur\u00e9lio Tarlombani da Silveira (<a href=\"http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/1756-8.pdf\">leia aqui</a>).<br /><br />Identifica\u00e7\u00e3o de Conflitos pelo Uso e Ocupa\u00e7\u00e3o do Solo Urbano na Regi\u00e3o das Nascentes do Rio Bel\u00e9m, Munic\u00edpio de Curitiba, Paran\u00e1\u00a0 HARRY ALBERTO BOLLMANN (PUCPR), DENIS ALCIDES REZENDE (PUCPR) e RAFAEL ALEXANDRE DE FIGUEIREDO GOMES (PUCPR) (<a href=\"http://unuhospedagem.com.br/revista/rbeur/index.php/anais/article/viewFile/3512/3441\">leia aqui</a>).<br /><br />Boletim Especial do Instituto Hist\u00f3rico, Geogr\u00e1fico e Etnogr\u00e1fico Paranaense. Comemorativo ao Sesquicenten\u00e1rio da Independ\u00eancia do Brasil 1822-1972. (Volume XV, ano 1972).<br /><br />Fenianos, Eduardo Em\u00edlio. Orleans, Riviera, Augusta e S\u00e3o Miguel. Curitiba: UniverCidade, 2000. (Cole\u00e7\u00e3o Bairros de Curitiba; v. 24).</span></div>", "author_name": "Michelle Stival da Rocha", "version": "1.0", "author_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br/author/Michelle Stival da Rocha", "provider_name": "Portal da C\u00e2mara Municipal de Curitiba", "type": "rich"}