{"provider_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br", "title": " Sobre her\u00f3is e tumbas: o Cemit\u00e9rio Municipal ", "html": "<p align=\"justify\"><span><em>H\u00e1 quatro anos, a Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara publica textos sobre temas relativos \u00e0 hist\u00f3ria de Curitiba. Em 15 de julho de 2010, foi publicada mat\u00e9ria\u00a0 da jornalista Michelle Stival, funcion\u00e1ria do setor, sobre a rela\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara Municipal com a constru\u00e7\u00e3o e inaugura\u00e7\u00e3o do Cemit\u00e9rio S\u00e3o Francisco de Paula, tamb\u00e9m conhecido como Cemit\u00e9rio Municipal (<a href=\"http://www.cmc.pr.gov.br/ass_det.php?not=15563\">link</a>). No mesmo texto, a jornalista abordou outros cemit\u00e9rios da cidade, bem como a evolu\u00e7\u00e3o das leis municipais que passaram a regulamentar os servi\u00e7os funer\u00e1rios. Recentemente, o r\u00e1pido esgotamento das vagas para as visitas guiadas ao Cemit\u00e9rio Municipal (em curso divulgado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente) mostrou o interesse do p\u00fablico nos aspectos hist\u00f3ricos e art\u00edsticos do local, bem como evidenciou suas potencialidades tur\u00edsticas. A Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara acompanhou uma dessas visitas.</em><br /><br />\u201cA C\u00e2mara esteve presente em praticamente todos os est\u00e1gios da constru\u00e7\u00e3o do Cemit\u00e9rio Municipal de Curitiba. As obras foram marcadas por demoras, interrup\u00e7\u00f5es, falta de m\u00e3o-de-obra e dificuldades burocr\u00e1ticas, mas houve, sobretudo, uma resist\u00eancia por parte da popula\u00e7\u00e3o que mesmo percebendo os perigos que envolviam o enterro dos mortos no ch\u00e3o e nas paredes das igrejas (os chamados enterros ad sanctos), preferia manter-se fiel a essa pr\u00e1tica\u201d, explicou Clarissa Grassi, pesquisadora que h\u00e1 dez anos se dedica a estudar o Cemit\u00e9rio Municipal (Cemit\u00e9rio S\u00e3o Francisco de Paula) sob aspectos hist\u00f3ricos, arquitet\u00f4nicos, simb\u00f3licos e sociais.<br /><br />Suas pesquisas deram origem ao livro \u201cUm olhar... A arte no Sil\u00eancio\u201d, que foi lan\u00e7ado em 2006, por ocasi\u00e3o dos 160 anos do cemit\u00e9rio. A obra cont\u00e9m fotos e explica\u00e7\u00f5es sobre 54 esculturas e t\u00famulos, com dados a respeito da simbologia das obras e, em alguns casos, sobre a hist\u00f3ria pessoal e familiar que contextualiza as imagens tumulares. \u201cA partir do s\u00e9culo XIX, os chamados cemit\u00e9rios secularizados s\u00e3o estruturados como simulacros de cidades e, aos poucos v\u00e3o reunir obras de arte que buscavam perpetuar a imagem dos homenageados\u201d, esclareceu Clarissa.<br /><br />Para ela, a intensa procura por vagas para a visita guiada ao Cemit\u00e9rio Municipal revela que existe um p\u00fablico disposto a conhecer mais profundamente esses espa\u00e7os, o que justificaria pens\u00e1-los numa perspectiva tur\u00edstica. \u201dNo exterior o turismo cemiterial \u00e9 comum e visto com naturalidade. Cemit\u00e9rios como P\u00e8re-Lachaise, em Paris, de la Recoleta, em Buenos Aires e o Monumental em Mil\u00e3o s\u00e3o pontos obrigat\u00f3rios nos cat\u00e1logos tur\u00edsticos destas cidades\u201d, esclareceu a pesquisadora. Ainda para ela, \u201co Cemit\u00e9rio S\u00e3o Francisco de Paula n\u00e3o possui a relev\u00e2ncia hist\u00f3rica e arquitet\u00f4nica dos cemit\u00e9rios citados, mas ele guarda arte tumular suficiente para justificar a realiza\u00e7\u00e3o das visitas orientadas\u201d.<br /><br /><strong>Secularizados</strong><br />Durante aproximadamente oito s\u00e9culos vigorou a pr\u00e1tica de se enterrar os mortos no ch\u00e3o das igrejas ou deposit\u00e1-los nas paredes. Eram os chamados enterros ad sanctos, cujos resqu\u00edcios ainda podem ser vistos abaixo do piso de algumas igrejas mais antigas. As epidemias dos s\u00e9culos XVIII e XIX colocam a \u201chygiene\u201d na pauta e certos costumes acabaram por cair em desuso, entre eles, os enterros em igrejas. A rep\u00fablica marca a \u201cera de ouro\u201d dos cemit\u00e9rios secularizados, isto \u00e9, desvinculados da administra\u00e7\u00e3o da igreja cat\u00f3lica. Essa separa\u00e7\u00e3o permitiu que pessoas de orienta\u00e7\u00f5es religiosas diferentes ocupassem livremente o local. Al\u00e9m disso, houve maior liberdade para a escolha das ornamenta\u00e7\u00f5es tumulares. A configura\u00e7\u00e3o assumida pelos cemit\u00e9rios naquele momento permanece at\u00e9 hoje: \u00e1reas cercadas ou muradas que abrigam os mortos e seus respectivos t\u00famulos, jazigos, l\u00e1pides, esculturas e todo o conjunto de elementos que viria a ser conhecido como arte tumular.<br /><br />\u201cO espa\u00e7o funer\u00e1rio se tornou ent\u00e3o um local delimitado, compondo-se de muros e port\u00f5es, e cuidadosamente divididos em al\u00e9ias ou quadras, de modo a facilitar a vigil\u00e2ncia e o controle desses espa\u00e7os. A circula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 bem definida e vis\u00edvel, e cada sepultura conta com um n\u00famero de identifica\u00e7\u00e3o, al\u00e9m dos nomes e datas dos mortos, o que individualiza cada um dentro do conjunto. Os cemit\u00e9rios passam a ter hor\u00e1rios para abrir e fechar, e, portanto um rigoroso controle da rela\u00e7\u00e3o entre vivos e mortos\u201d, observou Renata de Souza Nogueira, em estudo sobre preserva\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio.<br /><br />A individualiza\u00e7\u00e3o do morto extrapola sua identifica\u00e7\u00e3o e \u00e9 celebrada por esculturas e pe\u00e7as arquitet\u00f4nicas arrojadas, que tamb\u00e9m cumprem a fun\u00e7\u00e3o de expor o poder econ\u00f4mico das fam\u00edlias no contexto da comunidade. A distribui\u00e7\u00e3o social dos vivos se reproduz na geografia do cemit\u00e9rio que concentra em determinadas regi\u00f5es os t\u00famulos e mausol\u00e9us monumentais dos ricos. O per\u00edodo que vai da proclama\u00e7\u00e3o da rep\u00fablica at\u00e9 meados dos anos 1940 presenciou uma explos\u00e3o de arte tumular no Brasil. Homens de posses como os bar\u00f5es da erva-mate e do caf\u00e9 investiram pesado na constru\u00e7\u00e3o de seus jazigos. <br /><br />Pol\u00edticos e militares tamb\u00e9m s\u00e3o fortes presen\u00e7as nos t\u00famulos do Cemit\u00e9rio Municipal. Muitos foram, em algum momento e suas vidas, vinculados \u00e0 C\u00e2mara, como por exemplo o Bar\u00e3o do Serro Azul, Vicente Machado, Eufr\u00e1sio Correia e o doutor Jo\u00e3o Pedrosa, que al\u00e9m de presidente da C\u00e2mara Municipal, foi tamb\u00e9m o primeiro paranaense a ocupar o cargo de presidente da Prov\u00edncia. Al\u00e9m de incentivar o ensino p\u00fablico, ele foi o respons\u00e1vel pelo avan\u00e7o final das obras do cemit\u00e9rio. Seu t\u00famulo vertical contrabalan\u00e7a o peso do monolito com a leveza do anjo com a m\u00e3o erguida (infelizmente vandalizado). <br /><br /><strong>Mausol\u00e9us Monumentais</strong><br />A tipologia dos t\u00famulos \u00e9 variada e sua descri\u00e7\u00e3o pode ser encontrada no Boletim da Casa Rom\u00e1rio Martins dedicado ao Cemit\u00e9rio Municipal (Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Curitiba, 1995), de autoria da professora Cassiana Lacerda. A classifica\u00e7\u00e3o abrange t\u00famulos verticais (mon\u00f3litos e estelas), t\u00famulos horizontais com mon\u00f3lito ou capela vertical, capelas votivas e capelas de fam\u00edlia. Para a professora Cassiana Lacerda, essas capelas-mausol\u00e9us s\u00e3o \u201ccertamente os jazigos que chamam mais aten\u00e7\u00e3o no cemit\u00e9rio S\u00e3o Francisco de Paula e lhe imprimem caracter\u00edsticas pr\u00f3prias\u201d. S\u00e3o constru\u00e7\u00f5es altas (algumas com mais de dez metros), robustas (a maior possui 80 m\u00b2) repletas de adornos, volutas, cornijas duplas, balaustradas com g\u00e1rgulas e outros elementos rom\u00e2nticos ou g\u00f3ticos. <br /><br />Quando a tend\u00eancia est\u00e9tica se orientou pelas escolas art d\u00e9co e art nouveau, esses mausol\u00e9us monumentais ganharam caracter\u00edsticas desses estilos e alguns exemplares s\u00e3o dignos de nota, como \u00e9 o caso do jazigo da fam\u00edlia Le\u00e3o de Macedo \u201cconstru\u00eddo em forma de tronco de pir\u00e2mide com caracter\u00edstica maias, foi concebido no esp\u00edrito art d\u00e8co. A portada de ferro batido \u00e9 trabalhada com elementos naturalistas imitando tochas ardendo. Entre os elementos da decora\u00e7\u00e3o destacam-se as cabe\u00e7as de le\u00e3o, como as existentes no palacete Le\u00e3o J\u00fanior e no front\u00e3o, duas tochas unidas por uma guirlanda, destacando-se no meio a grega. Os frisos decorativos exploram elementos geom\u00e9tricos\u201d.<br /><br />Existem tamb\u00e9m capelas em estilo greco-romano, mon\u00f3pteros (como o jazigo de Jo\u00e3o Gualberto) e at\u00e9 mausol\u00e9us com influ\u00eancias greco-eg\u00edpcias como a pir\u00e2mide situada nas proximidades do muro lateral direito. Obrigat\u00f3rio lembrar os exclusivos t\u00famulos ornados com elementos visuais paranistas (fam\u00edlia Stenghel e o monumento a Andr\u00e9 de Barros \u2013 com busto do homenageado feito pelo escultor Jo\u00e3o Turin). <br /><br />Num dos \u00faltimos momentos da visita guiada pela pesquisadora Clarissa Grassi, o visitante \u00e9 conduzido a uma estreita viela que separa as quadras que ostentam mausol\u00e9us monumentais do muro lateral esquerdo \u2013 ela \u00e9 sombreada por densa arboriza\u00e7\u00e3o que acentua o clima melanc\u00f3lico inerente ao local. Muitos desses mausol\u00e9us combinam monumentalidade e abandono: musgos com mais de 100 anos se espraiam por t\u00famulos que um dia representaram o poder econ\u00f4mico e pol\u00edtico no Paran\u00e1.<br /><br /><strong>Anjos</strong><br />Al\u00e9m dessas constru\u00e7\u00f5es, o cemit\u00e9rio \u00e9 pontuado por um verdadeiro ex\u00e9rcito de est\u00e1tuas em m\u00e1rmore, bronze e granito nas mais diversas representa\u00e7\u00f5es, significados e simbologias, algumas contraditoriamente brutais em sua delicadeza. A pesquisadora Clarissa Grassi destacou no passeio guiado que \u201centre as est\u00e1tuas encontramos anjos d\u00f3ceis, anjos do apocalipse, pranteadoras, imagens religiosas, c\u00edvicas e at\u00e9 mesmo er\u00f3ticas\u201d. <br /><br />Seu objetivo \u00e9 catalogar os t\u00famulos mais relevantes e coment\u00e1-los com maior detalhamento em um pr\u00f3ximo livro. Por enquanto, ela est\u00e1 gratificada pelo interesse da popula\u00e7\u00e3o nas atividades que promove. \u201cAcredito que o Cemit\u00e9rio Municipal possui um forte potencial tur\u00edstico e pode garantir um fluxo cont\u00ednuo de visitantes. Sem falar no t\u00famulo de Maria Bueno, de longe o mais visitado desse espa\u00e7o\u201d, lembrou Clarissa.<br /></span></p>\r\n<p><span><em>Por Jo\u00e3o C\u00e2ndido Martins</em>\u00a0</span></p>\r\n<p><span><br /><strong>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas</strong><br /><br />\u201cA vida e a morte na hist\u00f3ria de Curitiba\u201d, da jornalista Michelle Stival, integrante da equipe da Assessoria de Comunica\u00e7\u00e3o da C\u00e2mara Municipal de Curitiba. Mat\u00e9ria publicada em 15/07/2010, na p\u00e1gina da institui\u00e7\u00e3o na internet. (<a href=\"http://www.cmc.pr.gov.br/ass_det.php?not=15563\" target=\"_blank\">Link aqui</a>)<br /><br />\u201cCemit\u00e9rio Municipal S\u00e3o Francisco de Paula: Monumento e Documento\u201d, texto de Cassiana Carollo de Lacerda publicado no Boletim Informativo da Casa Rom\u00e1rio Martins (Volume XXI, n\u00famero 104). Edi\u00e7\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o Cultural de Curitiba em abril de 1995. (<a href=\"http://www.fap.pr.gov.br/arquivos/File/Comunicacao_2012/Publicacoes/O_Mosaico/Numero_7/OMosaico7_Artigo3_Santos.pdf\" target=\"_blank\">Link aqui</a>)<br /><br />\u201cA Arte Cemiterial como Fator de Distin\u00e7\u00e3o e Eterniza\u00e7\u00e3o do Status Social no Cemit\u00e9rio S\u00e3o Francisco de Paula\u201d, artigo de Sara Jane Santos, publicado na revista \u201cO Mosaico\u201d (n. 7, p. 31-45), editada pela Faculdade de Artes do Paran\u00e1 em 2012. (<a href=\"http://www.fap.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=276\" target=\"_blank\">Link aqui</a>) <br /><br />\u201cArte Funer\u00e1ria no Brasil: Contribui\u00e7\u00f5es para a Historiografia da Arte Brasileira\u201d, pesquisa apresentada por Maria Elizia Borges durante o XXII Col\u00f3quio Brasileiro de Hist\u00f3ria da Arte, em 2002, na Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG). (<a href=\"https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/www.cbha.art.br/coloquios/2002/textos/texto26.pdf\" target=\"_blank\">Link aqui</a>)<br /><br />\u201cDescobrindo o art-d\u00e8co no Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista\u201d, pesquisa apresentada por Renata de Souza Nogueira no 9\u00ba Semin\u00e1rio Docomomo Brasil, em 2011.(<a href=\"https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/www.docomomobsb.org\" target=\"_blank\">Link aqui</a>)\u00a0 <br /><br />\u201cArte e Sociedade nos Cemit\u00e9rios Brasileiros\u201d, livro de Clarival do Prado Valladares. Publicado pelo MEC em 1972.<br /></span></p>", "author_name": "", "version": "1.0", "author_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br/author/assessoria.comunicacao", "provider_name": "Portal da C\u00e2mara Municipal de Curitiba", "type": "rich"}