{"provider_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br", "title": "ESPECIAL: Os filhos da Vila Nossa Senhora da Luz", "html": "<p align=\"justify\"><span>Quando a Vila Nossa Senhora da Luz foi inaugurada, em novembro de 1966, faltavam \u00e1gua, luz, asfalto, escola e policiamento. Mas havia gente, muita gente; fam\u00edlias vindas de todos os cantos de Curitiba e do interior. V\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es passaram pela comunidade. Muitos foram embora, outros resistiram ao tempo para contar suas hist\u00f3rias. Quem vive l\u00e1 h\u00e1 d\u00e9cadas se diz orgulhoso da comunidade e reclama do preconceito que sempre sofreu por morar em um lugar considerado violento pelo resto da popula\u00e7\u00e3o.<br /><br />O nosso guia pelas ruas estreitas da Vila Nossa Senhora da Luz (\u201cdos Pinhais\u201d, com o tempo, deixou de ser utilizado) foi o pintor, decorador e rep\u00f3rter da vila, Haroldo Marconi, de 48 anos, 46 deles vividos ali. Veio do norte do Paran\u00e1 em 1970, trazido pelos pais, com mais sete irm\u00e3os \u2013 apenas um mais novo, ainda beb\u00ea. Ele nos recebeu no bar Tio Sam, na pra\u00e7a 5, onde estava fazendo uma pintura. \u201cO melhor lugar do mundo para se viver \u00e9 aqui. Temos tudo. S\u00e3o v\u00e1rios com\u00e9rcios, de um pessoal bacana, trabalhador\u201d, comemora.<br /><br />\u201cAntigamente era tudo terra vermelha. Quando chegamos j\u00e1 tinha pra\u00e7as, as casas eram todas padr\u00e3o, pintadas com cal, nada de sobrados. As cercas eram todas de madeira. Tinha janela que era pintada de azul, outras de amarelo, outras de vermelho\u201d, recorda. Mas desde cedo aprendeu que morar na Vila \u00e9 ser discriminado. \u201cPreconceito sempre rolou. Em 1987, quando eu servi o Ex\u00e9rcito aqui no 5\u00ba Batalh\u00e3o Log\u00edstico, fui perseguido o ano inteiro por ser morador da Nossa Senhora da Luz. Diziam: 'Esse a\u00ed \u00e9 maconheiro'. S\u00f3 que eu resisti e fiquei l\u00e1 o ano inteiro.\u201d<br /><br />Considerado um l\u00edder comunit\u00e1rio, hoje ele diz combater o estigma da Vila em sua p\u00e1gina no Facebook com reportagens que faz com seu pr\u00f3prio celular, as quais s\u00e3o compartilhadas pelos amigos. \u201cA gente n\u00e3o aceita mais que falem mal da Nossa Senhora da Luz. \u00c9 um 'bairro' maravilhoso, eu tenho orgulho de dizer que moro na Nossa Senhora da Luz. Aqui existe todo o tipo de pessoas, mas a maioria \u00e9 boa, digna, de car\u00e1ter, trabalhadores. O tr\u00e1fico existe. Mas existe tamb\u00e9m no Batel, existe no Centro de Curitiba, em S\u00e3o Paulo, na Alemanha, no Jap\u00e3o, em tudo quanto \u00e9 lugar. Ent\u00e3o n\u00e3o adianta rotular a Vila por isso. O urubu s\u00f3 v\u00ea o que n\u00e3o presta e o beija-flor s\u00f3 v\u00ea o que presta. Um lugar que eu me sinto seguro \u00e9 aqui. Sempre fui respeitado e respeitei as pessoas aqui.\u201d<br /><br />Apesar da campanha, ele admite que a forma de se lidar com os desentendimentos mudou. \u201cQuando um traficante brigava com o outro, a guerra era olho roxo, um dava porrada no outro, dali dois dias estavam tomando cerveja juntos e tudo bem. Hoje em dia n\u00e3o, se voc\u00ea ofender algu\u00e9m leva tiro, n\u00e9? A pol\u00edcia tamb\u00e9m. Quando tinha uma execu\u00e7\u00e3o no bairro, a pol\u00edcia vinha, fazia amizade com os moradores, fazia as perguntas. Hoje em dia n\u00e3o, a gente\u00a0 n\u00e3o pode nem chegar perto que j\u00e1 est\u00e3o xingando\u201d, reclamou.<br /><br /><strong>O \u201cTio Sam\u201d e o dono da farm\u00e1cia</strong><br />O dono do bar onde Marconi estava sendo entrevistado, Santilho Calixo, 75, o \u201cTio Sam\u201d, tamb\u00e9m \u00e9 morador antigo - desde 1977. \u201cQuando eu mudei s\u00f3 tinha gente trabalhadora. Se a gente se encontrava com uma pessoa na rua \u00e9 porque ela vinha do servi\u00e7o.\u201d Para ele, hoje o que falta na \u00e1rea \u00e9 \u201crespeito\u201d por parte do poder p\u00fablico. \u201cOutro dia colocaram fogo perto da minha casa e liguei, liguei para a pol\u00edcia e ningu\u00e9m atendia. Depois que o bombeiro chegou, a\u00ed encheu de pol\u00edcia.\u201d<br /><br />Marconi nos acompanhou em uma breve conversa \u2013 interrompida pela entrada de clientes \u2013 com o dono da primeira farm\u00e1cia da regi\u00e3o, comprada em 1969. Almir Souza Fonseca, 73, contou que era acordado de madrugada para atender casos de emerg\u00eancia, j\u00e1 que \u00e0 noite n\u00e3o existia transporte coletivo para o Centro. \u201cRecebi muita gente fora de hora que tocava a campainha. Era chupeta, atadura, merc\u00fario, tudo assim fora de hora\u201d, relata. Ele veio de Jandaia do Sul, munic\u00edpio paranaense, com a esposa e os dois filhos. \u201cComprei com esse nome a\u00ed, Farm\u00e1cia Miral, s\u00f3 que depois eu mudei para Drogacic e agora voltei para o nome Miral novamente.\u201d<br /><br /><strong>Nascida na Vila</strong><br />No Farol do Saber, encontramos a zeladora Leia Loreni, de 46 anos, que literalmente nasceu na Vila, pelas m\u00e3os de uma parteira. Foi a terceira filha de um casal que havia se mudado do Parolin. \u201cJ\u00e1 casei, separei, hoje estou solteira. Mas quis com muito orgulho continuar morando aqui.\u201d Ela recorda que na casa dos pais (a m\u00e3e costureira e o pai, motorista) tinha um po\u00e7o de 30 metros de profundidade e quando faltava \u00e1gua na regi\u00e3o os vizinhos formavam fila em frente \u00e0 sua resid\u00eancia, com baldes e latas. \u201cLembro de uma estiagem grande quando eu tinha uns 8 anos, mais ou menos, que tinha \u00e1gua em um dia e depois era racionada por outros quatro dias.\u201d O po\u00e7o, ent\u00e3o, era a salva\u00e7\u00e3o.<br /><br />O pai era ciumento, lembra ela, e n\u00e3o gostava que frequentasse o cinema (que hoje o pr\u00e9dio abriga uma Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos \u00daltimos Dias, os M\u00f3rmons). O jeito, brinca Leila, era \u201cescapar\u201d para o Centro Social, onde frequentava o sarau. Ela tamb\u00e9m conta que os jovens costumavam fazer festas em casa. \u201cS\u00f3 tenho coisas boas para falar. Nunca roubaram nada da gente, nem do nosso varal. Sinto-me segura aqui. Acho que viol\u00eancia tem em todos os locais, em todos os bairros.\u201d E ao ser questionada sobre o que falta ser feito: \u201cAcho que nunca entendi porque no Albert [Schweitzer, escola municipal] n\u00e3o tem aula noturna\u201d.<br /><br /><strong>Desde 1967</strong><br />J\u00e1 est\u00e1vamos deixando a Vila quando descobrimos que uma de suas moradoras mais antigas, a pensionista Leonir Lucinda dos Santos, 82, estava no grupo da terceira idade da Par\u00f3quia Nossa Senhora da Luz \u2013 j\u00e1 hav\u00edamos batido \u00e0 sua porta antes, mas nada. Ela contou que, em 1967, veio com seus quatro filhos e o marido \u2013 antes moravam com os pais dela, no Jardim das Am\u00e9ricas. Pagou a casa em 20 anos. \u201cEra pouco, mas era t\u00e3o dif\u00edcil\u201d, ri.<br /><br />Na \u00e9poca, trabalhava de enfermeira, \u201ccuidadora particular, como dizem, n\u00e9?\u201d. Mas contar para algu\u00e9m de fora que morava na Nossa Senhora da Luz, \u201cnem pensar\u201d. \u201cEu n\u00e3o falava que era da vila. Para arrumar servi\u00e7o, se falasse n\u00e3o conseguia. Porque aqui [diziam que] s\u00f3 dava bandido.\u201d<br /><br />O trajeto at\u00e9 o emprego era feito uma parte a p\u00e9, outra de \u00f4nibus. \u201cEra dif\u00edcil porque tinha que atravessar toda a Vila e pegar o \u00f4nibus na Jo\u00e3o Bettega. Quando chovia isso aqui era um barr\u00e3o s\u00f3. J\u00e1 hoje n\u00e3o existe dist\u00e2ncia, porque a condu\u00e7\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil\u201d, relata \u2013 o asfalto s\u00f3 veio no final da d\u00e9cada de 1970, segundo alguns moradores, gra\u00e7as ao pedido de um vereador da \u00e9poca. Al\u00e9m do \u00f4nibus existia o trem, que passava \u00e0s 5h30 da manh\u00e3. \u201cSe voc\u00ea o perdesse e n\u00e3o tivesse dinheiro para pegar \u00f4nibus, a\u00ed \u00f3!\u201d, acena a moradora, para dizer que n\u00e3o havia mais sa\u00edda. T\u00e1xi naquela \u00e9poca, para ela, \u201cnem pensar\u201d. \u00a0<br /><br />Como n\u00e3o havia escola perto, os filhos estudavam em outros bairros. \u201cDepois \u00e9 que surgiu o 'Grup\u00e3o'. N\u00e3o tinha escola, posto de sa\u00fade, com\u00e9rcio. A partir dos anos 70 come\u00e7ou a melhorar.\u201d A regi\u00e3o de sua casa, quando se mudou, n\u00e3o tinha luz. \u201cSeis meses depois \u00e9 que veio. Era lampi\u00e3o e vela. A \u00e1gua era buscada na caixa d'\u00e1gua. A gente tinha um carrinho, punha as latas em cima e ia buscar \u00e1gua com as crian\u00e7as.\u201d A coleta de lixo tamb\u00e9m n\u00e3o era feita pela prefeitura: \u201cJogava por a\u00ed no mato\u201d.<br /><br />Para se divertir, iam ao cinema. \u201cTinha que ir l\u00e1, n\u00e3o tinha outra coisa.\u201d\u00a0 E em alguns finais de semana iam ao Centro, no Passeio P\u00fablico. Nadavam e pescavam no rio Barigui, que segundo ela era limpo. \u201cCansamos de descer fim de semana l\u00e1 e passar uma manh\u00e3 inteira pescando para o almo\u00e7o.\u201d<br /><br />J\u00e1 sobre os problemas de seguran\u00e7a, ela relata que \u201ctoda a vida teve\u201d. \u201cAcho que o que vale sou eu. Eu me dou com meus vizinhos, meus filhos tamb\u00e9m n\u00e3o se envolveram [com a viol\u00eancia]. Neto tive sim que se envolveu e no fim ele faleceu. N\u00e3o mataram, mas morreu de Aids, nos anos 80.\u201d<br /><br />Os vizinhos ela diz que vieram de diversos lugares. \u201cAqui veio de tudo um pouco, o que prestava e o que n\u00e3o prestava. Veio pessoal da Vila Pinto, da Vila Gua\u00edra, da Vila Izabel, do Ah\u00fa. Esse povo vamos dizer aqui que veio praticamente meio que na marra, para desfavelar mesmo\u201d, admite. Mas de acordo com Leonir, alguns n\u00e3o conseguiram pagar o financiamento e abandonaram suas resid\u00eancias: \u201cDa\u00ed o pessoal invadia as casas abandonadas dos que n\u00e3o conseguiam pagar\u201d.<br /><br /><strong>\u201cAntro de marginais\u201d</strong><br />\u00c9 un\u00e2nime a opini\u00e3o de que o Centro Social precisa ser reformado. \u201cEst\u00e1 abandonado, \u00e9 um empurra-empurra de responsabilidade de um para o outro [prefeitura e governo estadual]. Ali ficaria a associa\u00e7\u00e3o dos moradores, gin\u00e1sio de esportes, espa\u00e7o para eventos. Tamb\u00e9m o Centro Cultural, para cursos profissionalizante a nossos jovens\u201d, cobrou Marconi.<br /><br />Dona Leonir, do alto de seus 49 anos como uma filha da Nossa Senhora da Luz, concorda: \u201cAli hoje podia hoje ser uma escola. Era para sair ainda um Centro Cultural, foi at\u00e9 disponibilizado verba e come\u00e7aram a obra, mas agora \u00e9 um antro s\u00f3 de marginais e de drogados\u201d.</span></p>\r\n<p align=\"justify\"><span><br /><strong>Mat\u00e9rias relacionadas:</strong><br /><br /><a class=\"external-link\" href=\"https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/especial-vila-nossa-senhora-da-luz-foi-criada-para-201cdesfavelar201d-curitiba\" target=\"_blank\" title=\"\">ESPECIAL: Vila Nossa Senhora da Luz foi criada para \u201cdesfavelar\u201d Curitiba</a><br /><br /><a class=\"external-link\" href=\"https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/especial-da-201cfavela-de-alvenaria201d-a-seguranca-em-crise-na-vila\" target=\"_blank\" title=\"\">ESPECIAL: Da \u201cfavela de alvenaria\u201d \u00e0 seguran\u00e7a em crise na Vila<br /></a></span></p>\r\n<p align=\"justify\">\u00a0</p>\r\n<p align=\"justify\"><span><a href=\"https://www.curitiba.pr.leg.br/ass_det.php?not=26728#&amp;panel1-1\" target=\"_blank\"></a><strong><span>Confira mais reportagens hist\u00f3ricas sobre Curitiba na se\u00e7\u00e3o \u201c<a class=\"external-link\" href=\"https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/nossa-memoria\" target=\"_blank\" title=\"\">Nossa Mem\u00f3ria</a>\u201d.</span></strong></span></p>", "author_name": "Fernanda Foggiato e Michelle Stival da Rocha", "version": "1.0", "author_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br/author/Fernanda Foggiato e Michelle Stival da Rocha", "provider_name": "Portal da C\u00e2mara Municipal de Curitiba", "type": "rich"}