{"provider_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br", "title": "A origem do Passeio P\u00fablico (127 anos de hist\u00f3ria)", "html": "<div align=\"justify\"><span><span>O italiano Francisco Fasce Fontana fez fortuna no Uruguai com a industrializa\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio de erva-mate. No come\u00e7o da d\u00e9cada de 1880, o empres\u00e1rio esteve em Curitiba para cobrar uma d\u00edvida e acabou se instalando, ap\u00f3s casar com a filha do desembargador Ermelino de Le\u00e3o, nome de peso entre os ervateiros paranaenses.\u00a0\u00a0\u00a0</span></span><br /><span><span>\u00a0\u00a0\u00a0</span></span><br /><span><span>Em 1885, o presidente da Prov\u00edncia do Paran\u00e1, Alfredo Taunay, ficou bem impressionado com o servi\u00e7o de saneamento que Fontana promoveu no terreno de sua mans\u00e3o (o chamado \u201cPalacete das Rosas\u201d), e o convidou para a condu\u00e7\u00e3o dos melhoramentos daquele que viria a ser o primeiro parque p\u00fablico de Curitiba. A ideia era sanear e embelezar uma \u00e1rea alagadi\u00e7a nas proximidades do Atalho da Graciosa para evitar a prolifera\u00e7\u00e3o de agentes vetores de doen\u00e7as. Fontana aceitou sabendo que o empreendimento traria benef\u00edcios para toda aquela regi\u00e3o (que \u00e0 \u00e9poca j\u00e1 era conhecida como Gl\u00f3ria, em fun\u00e7\u00e3o do Engenho da Gl\u00f3ria, de propriedade de Fontana).</span></span><br /><br /><span><span>Ele marcou \u00e9poca com suas t\u00e9cnicas inovadoras para a industrializa\u00e7\u00e3o do mate. Delegou ao engenheiro italiano Lazzarini (que tamb\u00e9m trabalhou na estrada de ferro e na constru\u00e7\u00e3o da Catedral) a tarefa de promover os melhoramentos no banhado.\u00a0 Tais interven\u00e7\u00f5es foram feitas \u00e0s pressas, porque precisavam ser conclu\u00eddas antes do fim da gest\u00e3o de Taunay. Fontana, envolvido com o projeto, injetou dinheiro do pr\u00f3prio bolso para que o parque se materializasse.</span></span><br /><br /><span><span>Mesmo inacabado, o parque teve boa receptividade entre a popula\u00e7\u00e3o. Foi batizado de \u201cPasseio P\u00fablico\u201d, a exemplo de muitos outros espa\u00e7os feitos com o mesmo objetivo, como os Passeios P\u00fablicos de Vila Bela, no Mato Grosso, criado em 1773; Vila Boa de Goi\u00e1s, fundado em 1778; Rio de Janeiro, constru\u00eddo entre os anos de 1779 e 1883; e o de Salvador, datado de 1803. Todos foram inspirados no Passeio P\u00fablico doado para a cidade de Lisboa pelo Marqu\u00eas de Pombal, em 1764.</span></span><br /><br /><span><span>Ao lado do Passeio P\u00fablico, o antigo Atalho da Graciosa tamb\u00e9m recebeu melhoramentos e passou a se chamar Boulevard 2 de Julho (posteriormente se tornaria a Avenida Jo\u00e3o Gualberto). Em seu entorno foram instalados os mais exuberantes palacetes da era dos bar\u00f5es da erva-mate. De certa forma, o Passeio acabou valorizando a regi\u00e3o que, ao lado do Batel, passou a reunir as resid\u00eancias dos cidad\u00e3os mais abastados. N\u00e3o por acaso, a linha de bondes iniciava no engenho do Bar\u00e3o do Serro Azul, no Batel, passava pelo centro da cidade e acabava em frente ao Engenho da Gl\u00f3ria, alguns metros depois da entrada do Passeio. Segundo o historiador Magunus Pereira, a diversidade e exuber\u00e2ncia da vegeta\u00e7\u00e3o do Passeio foi uma forma dos ervateiros criarem um ambiente que se diferenciasse do \u201cca\u00f3tico mato que envolvia a cidade\u201d.</span></span><br /><br /><span><span>Fontana foi escolhido como o primeiro administrador do parque, mas ao contr\u00e1rio do que ele provavelmente desejava, sua gest\u00e3o durou pouco. Entendia ele que os lazeres e servi\u00e7os oferecidos deveriam ser cobrados e, dessa forma ele conduziu os neg\u00f3cios, at\u00e9 a instala\u00e7\u00e3o do carrossel, tamb\u00e9m conhecido como a \u201celegante m\u00e1quina de cavalinhos\u201d.</span></span><br /><br /><strong><span><span>Revolta Popular</span></span></strong><br /><span><span>No entendimento da pesquisadora Cassiana L\u00edcia Lacerda, \u201cessa m\u00e1quina, certamente, proporcionava um sentimento de conquista povoando o imagin\u00e1rio dos adultos e das crian\u00e7as, causando at\u00e9 certo tumulto\u201d. O alvoro\u00e7o provocado pelo carrossel na popula\u00e7\u00e3o pelo mecanismo foi t\u00e3o intenso, que Fontana criou regras e aumentou os pre\u00e7os para o uso da m\u00e1quina. Houve desconforto popular. As mudan\u00e7as pol\u00edticas diminu\u00edram as verbas destinadas ao Passeio. Fontana ficou contrariado, pois teve de bancar a custas da manuten\u00e7\u00e3o do local (como j\u00e1 havia feito por ocasi\u00e3o das obras iniciais de saneamento).</span></span><br /><br /><span><span>A situa\u00e7\u00e3o que realmente o deixou furioso aconteceu quando fiscais da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica foram lhe cobrar recibos e notas fiscais das obras que ele mesmo estava pagando. Isso o tirou do s\u00e9rio a tal ponto que ele fechou os port\u00f5es do Passeio em repres\u00e1lia. Diante dos port\u00f5es fechados do Passeio P\u00fablico, os populares quase promoveram uma revolta armada. O povo em massa invadiu o parque numa clara demonstra\u00e7\u00e3o de que aquele espa\u00e7o era de todos, era \u201cres\u201d p\u00fablica. A cena n\u00e3o parece combinar com o pacato cen\u00e1rio sugerido pelos relatos da Curitiba antiga, mas em 1889 todo o Brasil atravessava uma turbul\u00eancia pol\u00edtica gerada pela imin\u00eancia da Rep\u00fablica. Fontana, que possu\u00eda ineg\u00e1veis v\u00ednculos com a monarquia, resolveu se afastar da dire\u00e7\u00e3o do Passeio P\u00fablico que, no decorrer dos anos seguintes, passou por in\u00fameras transforma\u00e7\u00f5es.</span></span><br /><br /><span><span>Quando Fontana faleceu, o jornal \u201cA Rep\u00fablica\u201d publicou um obitu\u00e1rio dizendo que ele fora respons\u00e1vel pela iniciativa do projeto do parque e pela doa\u00e7\u00e3o do terreno. Em verdade, a iniciativa de se criar um parque veio de Taunay e o terreno pertencia em sua maior parte \u00e0 administra\u00e7\u00e3o municipal. Curiosamente, o mesmo texto publicado erroneamente por \u201cA Rep\u00fablica\u201d foi usado em duas placas de bronze instaladas no Passeio. E o busto de Fontana que se encontra na entrada do parque \u00e9 de m\u00e1rmore, um material mais comum em cemit\u00e9rios.</span></span><br /><br /><span><span>*O Passeio P\u00fablico foi inaugurado \u00e0s tr\u00eas horas da tarde do dia 2 de maio de 1886, um domingo. Surgido de necessidades sanitaristas, o parque permanece at\u00e9 hoje como um peda\u00e7o de \u00e1rea verde em meio \u00e0 cidade.</span></span><br /><br /><strong><span><span>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas:</span></span></strong><br /><br /><span><span>Passeio P\u00fablico, primeiro parque p\u00fablico de Curitiba. Boletim Informativo da Casa Rom\u00e1rio Martins, vol. 26, n\u00famero 124. Agosto de 2001. Texto de Cassiana L\u00edcia de Lacerda.</span></span><br /><br /><span><span>Semeando iras rumo ao progresso \u2013 Ordenamento jur\u00eddico e econ\u00f4mico da Sociedade Paranaense, 1829-1889 (Magnus Roberto de Mello Pereira. Editora da UFPR, 1996)</span></span>.</div>\r\n<div align=\"justify\">\u00a0</div>\r\n<div align=\"justify\"><span>\"O Verde na Metr\u00f3pole: a evolu\u00e7\u00e3o das pra\u00e7as e jardins em Curitiba 1885-1916\", de Aparecida Vaz da Silva Bahls. Disserta\u00e7\u00e3o apresentada para o Mestrado em Hist\u00f3ria da UFPR, em 1998.</span></div>", "author_name": "Jo\u00e3o C\u00e2ndido Martins", "version": "1.0", "author_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br/author/Jo\u00e3o C\u00e2ndido Martins", "provider_name": "Portal da C\u00e2mara Municipal de Curitiba", "type": "rich"}