{"provider_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br", "title": "A escolha de Curitiba como capital do Paran\u00e1 ", "html": "<div align=\"justify\"><span>Em 1853, a 5\u00aa Comarca de S\u00e3o Paulo conseguiu sua emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e se tornou Prov\u00edncia, sendo batizada com o nome de Paran\u00e1. Sua administra\u00e7\u00e3o ficou ao encargo do conselheiro Zacarias de G\u00f3es e Vasconcelos. Apesar da pouca idade (38 anos), o pol\u00edtico nascido na Bahia acumulava experi\u00eancias administrativas como presidente das prov\u00edncias de Piau\u00ed e Sergipe. Ele sabia que a regi\u00e3o do Paran\u00e1 carecia de infraestrutura, estradas, educa\u00e7\u00e3o e toda sorte de melhoramentos. Ent\u00e3o, decidiu percorrer as cidades e avaliar as circunst\u00e2ncias antes de oficializar qualquer medida. <br /><br />Era necess\u00e1rio determinar a escolha da capital. Curitiba havia sido designada provisoriamente para esta fun\u00e7\u00e3o, mas a escolha definitiva deveria ser realizada pela rec\u00e9m-criada Assembleia Legislativa Estadual. Zacarias foi recepcionado no dia 19 de dezembro de 1853 pelos integrantes da C\u00e2mara Municipal, cujo presidente lhe deferiu o chamado \u201cJuramento dos Santos Evangelhos\u201d. A cerim\u00f4nia foi conclu\u00edda com a celebra\u00e7\u00e3o de uma missa em a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as na antiga igreja matriz (que antecedeu a atual catedral metropolitana, inaugurada em 1893).<br /><br />\u00c0 \u00e9poca da emancipa\u00e7\u00e3o, Curitiba ostentava o status de cidade desde 1842, mas a apar\u00eancia do local era acanhada. Limitava-se a algumas ruas e travessas no entorno do Largo da Matriz (hoje conhecido como Pra\u00e7a Tiradentes). A economia local se fundava principalmente no com\u00e9rcio de gado em fun\u00e7\u00e3o da proximidade com o \u201cCaminho de Viam\u00e3o\u201d, que ligava S\u00e3o Paulo ao Rio Grande do Sul, conforme esclarece a professora Cec\u00edlia Westphalen, coautora de Hist\u00f3ria do Paran\u00e1 (Grafipar, 1969). <br /><br />Essas dificuldades estruturais pesaram negativamente quando da escolha da capital e os defensores de Paranagu\u00e1 como a nova capital foram bastante incisivos quanto \u00e0s limita\u00e7\u00f5es urbanas de Curitiba. Eles alegavam que\u00a0 a cidade portu\u00e1ria j\u00e1 contava h\u00e1 muitos anos com as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias a uma capital, al\u00e9m do fato de ter sido pioneira na campanha pr\u00f3-emancipa\u00e7\u00e3o. Por tr\u00e1s destes argumentos, havia os interesses pol\u00edticos dos grupos locais.<br /><br />Em Paranagu\u00e1 predominavam os conservadores, liderados por Manoel Francisco Correia, produtor de mate (neste per\u00edodo, a cultura do mate ainda estava restrita \u00e0s terras litor\u00e2neas). J\u00e1 em Curitiba, a for\u00e7a estava com os liberais encabe\u00e7ados por Jos\u00e9 Caetano de Oliveira, o Bar\u00e3o dos Campos Gerais, um dos mais representativos comerciantes de carne do per\u00edodo. Por ocasi\u00e3o da Revolta Liberal em Sorocaba (1842), Jos\u00e9 Caetano, que era pai do tamb\u00e9m pol\u00edtico Jesu\u00edno Marcondes, fora explicitamente favor\u00e1vel ao movimento revoltoso.\u00a0\u00a0 <br /><br /><strong>A escolha de Curitiba</strong><br />Oswaldo Pilotto, em seu estudo sobre a emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Paran\u00e1, esclareceu que a precariedade das condi\u00e7\u00f5es estruturais de Curitiba se devia a muitos anos de descaso pol\u00edtico com o local por parte dos administradores da Prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo. A C\u00e2mara Municipal de Curitiba, embora ativa e sempre disposta a possibilitar melhorias, sofria entraves de ordem burocr\u00e1tica e or\u00e7ament\u00e1ria. O acesso \u00e0 cidade era dif\u00edcil. Os caminhos que a ligavam ao litoral precisavam de constantes manuten\u00e7\u00f5es e, n\u00e3o por acaso, uma das primeiras medidas do conselheiro Zacarias como presidente da prov\u00edncia foi a continuidade das obras da estrada da Graciosa (a inaugura\u00e7\u00e3o da estrada s\u00f3 se daria 20 anos depois).<br /><br />O pesquisador Sandro Aramis Richter Gomes observou que Zacarias sempre deu destaque \u00e0 sua condi\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rio p\u00fablico designado para uma miss\u00e3o e que, em raz\u00e3o disso, deveria se manter neutro em rela\u00e7\u00e3o a quest\u00f5es regionais e tomar decis\u00f5es de car\u00e1ter t\u00e9cnico. O fato, entretanto, \u00e9 que o conselheiro aderiu \u00e0 campanha em favor de Curitiba e nos seus pronunciamentos e relat\u00f3rios passou a defender a cidade como sede definitiva da prov\u00edncia.<br /><br />Ainda segundo Sandro Aramis, muitos dos argumentos usados por Zacarias coincidiam com os argumentos j\u00e1 manifestados por Jesu\u00edno Marcondes sobre o mesmo tema, o que apontaria uma simpatia de Zacarias (que era filiado ao Partido Conservador) aos liberais curitibanos e \u00e0 pr\u00f3pria cidade. Apostava o conselheiro nas potencialidades da pequena Curitiba e, de certa forma, seu posicionamento acabou por influenciar os deputados provinciais que determinaram Curitiba como capital em car\u00e1ter definitivo, decis\u00e3o oficializada pela Lei n\u00ba 1 de 26 de julho de 1854 (a primeira norma votada pelo Legislativo estadual).\u00a0 <br /><br /><strong>Identidade</strong><br />Os estudiosos do per\u00edodo concordam que, apesar das limita\u00e7\u00f5es enfrentadas por Zacarias, ele soube dar in\u00edcio a uma sistem\u00e1tica organiza\u00e7\u00e3o administrativa. Por\u00e9m, mais do que isso, criou uma identidade coletiva ao povo que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o se entendia como \u201cparanaense\u201d. Para o cr\u00edtico e historiador Wilson Martins, \u201cn\u00e3o existia nenhum paranaense antes disso, pelo simples motivo de que a prov\u00edncia ainda n\u00e3o havia sido criada. Havia apenas curitibanos, naturais da 5\u00aa comarca, como hoje designamos pelos adjetivos locais os habitantes dos diversos munic\u00edpios \u2013 que n\u00e3o deixam de ser paranaenses, assim como os curitibanos de 1853 n\u00e3o deixavam de ser paulistas\u201d.<br /><br />A data da emancipa\u00e7\u00e3o ganhou um car\u00e1ter especial a todos os habitantes da nova prov\u00edncia e, a partir dela, se desenvolveu um movimento de valoriza\u00e7\u00e3o local que ficou conhecido como \u201cparanismo\u201d. Essa corrente ganhou for\u00e7a no final do s\u00e9culo XIX e se estendeu at\u00e9 a metade do s\u00e9culo XX, quando marcou o esp\u00edrito das festividades do Centen\u00e1rio da Emancipa\u00e7\u00e3o. Embora muitas vezes o movimento tenha sido acusado de ufanismo gratuito, serviu para consolidar a identidade que teve sua g\u00eanese nos anos em que Zacarias esteve \u00e0 frente da Prov\u00edncia.<br /><br />Lembra ainda a professora Aparecida Vaz da Silva Bahls que \u201ca data tamb\u00e9m serviu para demarcar diversas inaugura\u00e7\u00f5es na capital, principalmente aquelas direcionadas para as reformas urbanas. Em 19 de dezembro de 1915, por exemplo, C\u00e2ndido de Abreu, ent\u00e3o prefeito de Curitiba, remodelou a Pra\u00e7a Zacarias no centro da cidade e entregou oficialmente \u00e0 popula\u00e7\u00e3o o monumento de Zacarias de Vasconcelos\u201d. <br /><br /><em>Por Jo\u00e3o C\u00e2ndido Martins</em><br /></span></div>", "author_name": "", "version": "1.0", "author_url": "https://www.curitiba.pr.leg.br/author/assessoria.comunicacao", "provider_name": "Portal da C\u00e2mara Municipal de Curitiba", "type": "rich"}